• Ailton Segura

UM AMIGO FANTASMA

Um amigo fantasma que tenho é Carlos Jacchieri. Cenógrafo do Teatro Municipal de São Paulo, foi elevado à condição de professor de História da Cultura no curso de Comunicação da Faculdade Anhembi, quando ela ainda era um casarão da rua Casa do Ator, recém criada pelo publicitário João Batista Reimão. Jacchieri não tinha formação acadêmica além do ensino básico mas, fazia circular suas ideias pelo mundo como muitos doutores em ciências não o fazem.


Quando cruzamos nossos caminhos ele tinha a idade que escrevi este texto. Trinta anos antes, quando eu tinha 24 anos. Nosso primeiro contato extraoficial foi o relato da lenda do Poromina-minare, livro de lenda indígena que havia escrito após ter circulado por muitas doses de cachaças de Goiás e Mato Grosso em expedições indigenistas.



Disponível, colocou-se a serviço da vida. Inteligente, colocou o cérebro à serviço da Escola Superior de Ciências que reunia de ufólogos, como Flavio Pereira, aeronautas e outros cientistas nacionalistas undergrounds que se antepunham às realidades criadas pós 64.

Depois do Poromina, veio o confronto com Von Danïken, quando afirmava que os Deuses não eram astronautas e como antropólogo prático analisava com rigor o que chamava de falácias.


Carpinteiro de ofício, aprendeu a construir modelos para entender ou explicar a realidade. E, com maestria, viajava das ilhas gregas de Homero às pegadas na lua, sem deixar de observar os perigos do meio looping que os aviões faziam sobre a escola, na decolagem de Congonhas. “Se o engenheiro de voo errar o avião cai de asa”, afirmou uma vez, absorto no semicírculo que o DC-10 fazia ao longe, sobre nossas cabeças.



A convivência com Levi Strauss deu uma nova visão a Jacchieri.


Mais tarde, ao separar-se da esposa judia, mergulhou no evangelho para emergir com o Evangelho Segundo Jesus Cristo, bem antes de Saramago, num mix muito louco que explicava, da marca suástica nazista ao papel da ovelha negra no rebanho e à alegoria do cordeiro de Deus que tirava os pecados do mundo. Tudo para explicar a sócio genética judia, responsável pelo destino do seu casamento.


Jacchieri sempre foi direto na fonte.


Não sei que destino levou Jacchieri. Mas foi ele que me apresentou a base do seu conhecimento, Pedro Kropotkin, por meio de um livro chamado “Apoio mútuo”, numa das manhãs em que preparávamos em uma espiriteira os ovos que seriam nosso almoço. Estas ocasiões eram especiais. Normalmente ocorriam quando tomávamos umas batidas a mais e íamos para sua casa, uma apartamento amplo no Bexiga (antes do bairro entrar na moda). Em várias dessas excursões encontramos a casa ora sem o gás, cortado por falta de pagamento, ou a luz...para ele era normal tudo isto.


A espiriteira era o recurso que usava para resolver o problema mais básico, a alimentação. Outras vezes, ficávamos no boteco de baixo, ele e eu sem dinheiro comíamos o PF de arroz feijão, picadinho e salada, pagando apenas com o prestígio e com promessas de saldar a dívida o mais rápido possível, o que ele fazia na primeira oportunidade. “É para pagar a conta que você pagou para mim”, explicava do alto da sua dignidade. Apesar dos momentos despossuídos, tinha uma visão de mendicância que jamais quis para si. “Tem muita gente de terno e gravata por aí que são mais mendigos do que muito maltrapilho que zanza pelas ruas”. Aí vinha ele com suas explicações filosóficas. “O que fazia o mendigo não era a falta de dinheiro. Era o ato de pedir”. Por isso nunca pedia, nem cigarros.


Hoje lembrando vagamente do relacionamento posso dizer que ele se oferecia para ser ajudado em um momento difícil, em troca de te ajudar em outro momento.

Quando preso no temível Doi-Codi, no mesmo local onde os sabujos da ditadura assassinaram o jornalista Wladmir Herzog. foi ter direto com o General Ednardo D’ávila.


Era peixe grande. Denunciado como cabeça de uma organização, foi acusado de imiscuir em seus alunos os conceitos marxistas. Frente ao militar e ameaçado, não teve dúvidas: “General, seu eu tivesse medo de estrelas eu não sairia à noite”. A frase estabeleceu o nível de igualdade entre o predador e a caça. “Eu tinha ajudado algumas pessoas que pela militância comunista estavam condenados. Era preciso tirá-los do país para manter sua integridades física e a própria vida”, explicava. “Percebi que os militares queriam, em primeiro lugar estabelecer o nexo entre eu e uma organização. E que eles nem sabiam desta minha atuação única, além de pensar, o que era proibido na época, principalmente se fosse de forma diferenciada do regime”.


Sua estratégia, comentou, foi ouvir as perguntas feitas com atenção e responder estritamente a verdade. “Se eles soubessem de algo que eu havia feito isto iria aparecer no interrogatório. E se eu não falasse a verdade eles teriam um pé para estabelecer a contradição que poderia se transformar em acusação”, argumentou. (esta estratégia eu usei na década de 80, quando eu e um grupo de jovens de Sorocaba organizamos a noite do beijo, um ato público contra um juiz da cidade que julgou indecente o amor. Durante o interrogatório que teria como finalidade me enquadrar na lei de segurança nacional, respondi a todo o momento que havia participado da noite do beijo e tudo o que fiz e me foi perguntado. Ao final o delegado que presidia o inquérito sacou de uma foto em que eu, no ombro de alguns jovens encerrava o ato. Perguntou se eu reconhecia aquilo e eu, tranquilamente disse que era eu, o que fez o delegado Anor de Scatimburgo ficar sem ação. Aquilo apenas confirmava o que eu havia dito o tempo inteiro: que havia participado do evento.)


“No fim, levado à presença do comandante do 2º Exército, ele me acusou de estar recomendando literatura marxista aos meus alunos”, contava Jacchieri. Três horas depois ele estava fugindo pela porta da frente da fortaleza do 2º Exército, recomendado pelo comandante, após demonstrar a ele que na biblioteca do quartel o que havia eram livros de cunho marxista. “Fomos até a biblioteca e lá fui mostrando para ele as obras que tinham inspiração marxistas: quase todos os livros, inclusive alguns do Golberi do Couto e Silva, cujos trechos “subversivos” interpretei para ele, leitor assíduo de uma dezena daquelas obras.


Jacchieri virou "fantasma" por força das circunstâncias.


Um dia um aluno do curso noturno conseguiu a concessão e financiamento para construir um centro turístico em Caraguatatuba e partilhando das dificuldades de sobrevivência de Jacchieri ofereceu-lhe um emprego no empreendimento. Iria morar na beira da praia, sem obrigação de fazer nada, apenas andar pela obra, tomar suas cachaças, ler seus livros (ou escrever) e ainda o que era imprescindível, receber um salário decente. “Pensei muito para aceitar”, me disse no desenlace. “Na verdade nós somos é burgueses mesmo. E burguês para ele era o conceito antropo-social da raiz da burguesia. “Nós criamos um espaço de segurança, fortificamos com muros para nossa defesa, o burgo, e relutamos em sair dali”. Esta conclusão favoreceu a que dez anos depois eu me liberasse para pisar as terras mato-grossenses, abandonando, como ele, uma vida que havia criado com toda a segurança do mundo para seguir para o incerto.


A partir daí mudamos nossos encontros. Vez por outra ligava para o escritório do empreendimento em que ele trabalhava e sabia o dia em que ele iria estar em São Paulo. Nestas ocasiões dividia com seus filhos e seus amigos o tempo precioso de um chopp no fim de tarde, nos bares situados, emblematicamente, nos fundos da Biblioteca Municipal Mario de Andrade.


Foi num destes encontros que ele me contou sua intervenção na “ilha” que o empreendimento se propunha a construir. “Percebi que a erosão provocada pela subida da maré estava pouco a pouco destruindo uma parte do terreno do empreendimento, situado numa ponta distante da obra. Ora, naquele ritmo, antes da obra ficar pronta teríamos o problema nas portas dos chalés turísticos que estavam sendo construídos”. Foram semanas de observação, medição e apontamentos para chegar à conclusão da necessidade de um enrocamento no lugar para evitar a destruição da base do empreendimento.


Por mais que tivesse recebido, Jacchieri havia, com aquele ato pago tudo o que recebeu pela sua “consultoria”, salvou o empreendimento do naufrágio e, se já gozava do respeito de alguns dos sócios do empreendimento convenceu os demais que antes de ser um capricho de amigo com poder era uma necessidade prática.


Foi mais ou menos a partir daí que compartilhando os fins de tarde com os operários da obra, num daqueles botecos de praia, feitos de pau escorando o teto de palha que contava mirabolantes histórias de como os romanos haviam construídos, há mais de 1.500 anos os aquedutos, 11 ao todo, com mais de mil quilômetros de extensão. Incrédulos os operários divertiam-se com as “histórias mentirosas” que ouviam daquele colega que nem trabalhar trabalhava. Protegido dos patrões, ficava lá perambulando durante o dia, ora com uma cordinha amarrada numa pedra feito um plumo na mão e sempre tomando notas. Para eles deveria ser difícil entender o papel do “velhinho” que se vestia como eles, que tomava suas pingas juntos e que, no entanto, quando os engenheiros chegavam, lá estava ele junto e sendo ouvido.


O golpe final, no entanto, veio ao final da obra. Os recursos da Embratur para o empreendimento não davam mais para continuar a obra. Era necessário um guindaste para colocar a ponte de ferro que ligava a ilha ao continente. Obra parada, lá ficava Jacchiere a trabalhar. Foi quando se propôs a colocar a ponte no lugar, sem o auxílio do guindaste. Explicou que precisa de uma balsa. “Destas balsas simples feitas com latões de óleo como flutuadores, coisa que qualquer soldador pode fazer”. Precisava de dois guinchos daqueles que se usa em construção. Sua ideia era aproveitar as marés para colocar a ponte nas amarrações de concreto. “Colocamos a cabeceira da ponte sobre a balsa com os guinchos, calçamos e esperamos a maré subir e depois é só tirar os calços e empurrar a armação de ferro sobre as bases”, explicou.


Por mais de um mês foi o motivo da troça diária das conversas no boteco. Os operários simulavam mentalmente o trabalho que seria feito e não viam outro resultado que não a ponte no fundo do pequeno riacho de mais ou menos 10 metros de largura. Jacchieri defendia-se. Ora lembrava os inacreditáveis romanos e seus aquedutos, ora lembrava que a tecnologia atual já fez o homem pisar no lua. Mas nada. Os operários faziam seu trabalho por força do mando, crença mesmo...


Chegou finalmente o grande momento. Balsa pronta... guincho no lugar... bases concretadas... e a ponte lá na margem, como se fosse um imenso dragão a ser domado. “Eu só temia uma coisa: na hora de colocar a ponta da ponte, ela poderia resvalar e mandar a balsa para longe, o que cobriria de razão a impotência mental dos operários acostumados a trabalhar com o fruto da cultura e não com a cultura”, falou.


Esta condição de ignorância do operariado levou por muitos dias a descrença para a obra. Aquilo que na ideia era impossível e virava piada de fim de tarde, passou a ser impossível e coisa séria com o início da operação. “Eu não acredito!”, exclamavam uns. “Impossível”, diziam outros. “Não vai dar certo”, arrematava o pessimista.


Mas finalmente chegou o dia. Todos parados. “Só ficamos no local da obra eu e os guincheiros, três pessoas ao todo. O resto do pessoal parou o trabalho e a uma distância que julgavam segura foram observar a operação.


A primeira fase foi concluída com êxito. A ponte foi puxada para cima da balsa, com macacos hidráulicos calçamos e levantamos ao máximo sua cabeceira e esperamos o movimento das marés. Jacchiere revolveu acompanhar a operação sobre a ponte. E naquele dia de festa, andava para cá e para lá, sempre explicando a operação aos operários. A subida na ponte iria dar aos guincheiros a segurança de que ele não se exporia se não soubesse o que estava fazendo. “Eles também não acreditavam na operação”, explicou.


Esta história me veio à mente toda quando anos depois assisti o filme de Miklos Kazanzakis “Zorba o grego”, pelo que poderia ter acontecido. Ele não me contou, mas na minha fantasia atual imagino que ao fim do processo ele, Jacchieri, abraçou-se com os operários e dançou.

Seria merecido.


As horas foram passando ao ritmo do movimento da maré. A tensão era dissipada com brincadeiras e comentários espirituosos, todos com cunho negativo. “Parece até que eles torciam para não dar certo”.


No alto da maré, calculada de antemão, com a precisão de minutos, os guinchos entram em ação e pouco a pouco a ponte foi tomando seu lugar sobre a base. Amarrada a balsa, foi a vez de descalçar o dragão de ferro que, docilmente ia sendo manobrado para que se aninhasse no lugar reservado para sua fixação. Quando a balsa foi retirada debaixo da ponte, Jacchieri foi para onde estavam os operários incrédulos e provocante os convidou para inaugurar a ponte. “O pior é que eles ainda não acreditavam, mesmo com a operação concluída, que ela havia sido um sucesso. Alguns ainda chegaram a comentar que ela poderia cair, que não estava bem firme e coisas do gênero”

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