• Ailton Segura

Setenta anos depois a lenga-lenga ainda é a mesma

Atualizado: Fev 25


Militar Cuiabano esteve à frente do Golpe, depois virou presidente


A luz mortiça das ruas contrastava com o fulgor que iluminava a grande mesa da grande sala do palácio. O aspecto sisudo dos três personagens que confabulava indicava que o momento era de decisão. Dois Cuiabanos e um alagoano ponderavam e mediam as consequências da divulgação do dossiê. Sabiam que o documento havia sido forjado. Mas não tinham saída. Com posturas nazifascistas estavam literalmente fazendo história. A história que lhes convinha para a sequestrar o poder que, em processo de disputa, escapava-lhes da mão.


Tempos antes da reunião os cuiabanos Eurico Gaspar Dutra (então ministro da Guerra) e Filinto Muller (chefe de polícia do Distrito Federal) e o alagoano Góes Monteiro (chefe do Estado-Maior do Exército) haviam recebido a incumbência do presidente da república Getúlio Vargas para realizar uma conspiração. O objetivo era promover a um clima de desestabilização social que se tornasse propício a um golpe. A elaboração do plano coube ao então capitão Mourão filho, que posteriormente, como general, iria ser um dos militares da linha de frente do golpe de 64.



Fake news da "ditadura comunista" era espalhada por todo o Brasil.


Surgiu o Dossiê Cohen, uma proposta “elaborada pelos comunistas” para a tomada do poder no Brasil. Pela força. O plano dos comunistas iria justificar a instauração do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, dois meses depois de ser divulgado pela Imprensa, sem questionamentos ou verificação de exatidão. A publicação do plano, seguida de uma forte campanha anticomunista, mobilizou a sociedade da época que temendo a instauração do caos social aderiu às futuras decisões de Getúlio Vargas. A intervenção comunista “para a tomada do poder”, previa greves gerais, saques, depredações e eliminação física das autoridades civis e militares que fossem contrárias ao comunismo. Colou.


Para fugir do comunismo (que na verdade nem existia no país ainda) e das suas atrocidades, Getúlio Vargas conseguiu que o Congresso Nacional, sensibilizado pelo Dossiê decretasse o Estado de guerra 1 e partiu para o enfrentamento com seus adversários. O governador gaúcho Flores da Cunha, seu principal opositor foi obrigado a exilar-se no Uruguai, fugindo das tropas que cercaram o Rio Grande do Sul.


No dia 10 de novembro criou o Estado Novo, uma das piores ditaduras que o país viu em sua história e que durou até 1945, quando finalmente a verdade veio à tona. Em março o ex-capitão, agora general Góes Monteiro revelou a farsa que havia produzido oito anos antes. Em suas revelações procurou isentar-se culpa, acusando o Estado-Maior do Exército pela fraude. O Estado Novo aboliu a participação partidária, criou o DIP (Departamento de Imprensa e Publicidade)2 e exercia assim total controle sobre a opinião pública, chegando a exigir a publicação quase que na totalidade do material editorial produzido pelo Palácio do Catete, então o centro do poder de Getúlio Vargas.



Os jornais foram usados para fortalecer o golpe


(1) Estado de Guerra - Situação em que uma nação, com ou sem declaração de guerra, inicia hostilidades contra outra suspendendo todas as garantias constitucionais consideradas direta ou indiretamente prejudiciais à segurança nacional. Em dezembro de 1935, uma emenda constitucional abriu a possibilidade de se equiparar a "comoção intestina grave", com finalidades subversivas das instituições políticas e sociais, ao estado de guerra. Foi com essas características que o estado de guerra foi decretado no Brasil nos anos de 1936 e 1937.


(2) O DIP exercia um duplo controle: um controle autoritário proibitivo, da censura propriamente dita. E tinha o controle através da corrupção. O caso da isenção para a importação do papel da imprensa. Você importava o papel da Finlândia, do Canadá, mas tudo sob o controle do DIP. E tinha o derrame de dinheiro, que era tentador. Por exemplo, o DIP criou uma série de livros pequenos, tudo sobre o Getúlio: "Vargas e o Teatro", "Vargas e o Cinema", "Vargas e a Literatura". Pagavam um dinheirão, em termos de época. Um pobre intelectual que ganhava, vamos dizer, Cr$ 1.500,00 com a edição de um romance, eles botavam dez mil cruzeiros no bolso dele para escrever quarenta páginas sobre a coisa. Isso era um negócio terrível. Poucos resistiram.


O mercado de trabalho era limitadíssimo, porque os jornais tinham tudo pronto da Agência Nacional. Vinha tudo mastigado. As redações tinham quatro ou cinco pessoas que faziam o jornal todo. Vinha tudo pronto, com ordem, inclusive, de publicar em tal página, com tal destaque. O DIP chegava ao ponto de dizer que tipo devia ser usado: negrito, corpo 9, à esquerda. Entendeu? E qualquer sinal de rebeldia cortavam o papel e a publicidade. A publicidade o governo controlava, vamos dizer, 60% e ao mesmo tempo intimidava as empresas privadas. Ninguém queria ficar contra o Banco do Brasil. Sob o ponto de vista da censura, eu considero o Estado Novo mais tenebroso, porque não tinha saída. Hoje existe o recurso de você deixar o espaço em branco. Naquele tempo, se fizesse isso, fechavam o jornal. (Depoimento de JOEL SILVEIRA, jornalista ao repórter Gilberto Negreiros, no jornal Folha de S. Paulo em 9 de janeiro de 1979)

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