• Ailton Segura

Por falar em Teseu...o futuro só existe no passado!


Edição fake do NYT que circulou.


Abordar o jornalismo com perspectiva do futuro é raciocinar no passado. A idéia é paradoxal. Mas é a partir dela que podemos entender o jornalismo como uma manifestação dos tempos modernos. O tempo, aqui, como componente primordial da modernidade em sua trilogia: passado, presente e futuro.

É o tempo aliado ao espaço, como suporte da vida, o denominador comum do jornalismo moderno. Jornalismo que pressupunha o repasse dos novos conceitos de sociedade como sua função principal. A notícia, então, era apenas o desencaixe do passado em relação ao futuro, que se tornava, no presente, combustível para a realização dos indivíduos. Ela continua a existir num jornalismo imediato, pirotécnico, determinado pela mídia eletrônica. Porém quero acreditar que no jornalismo impresso no outro dia, ela se tornou obsoleta. E ao continuar vivendo da notícia de ontem e dos conceitos da modernidade a Imprensa torna-se dispensável. O que não quer dizer desnecessária.

O fim da aldeia e a mundialização do espaço determinaram uma nova função para o jornalismo. A de atribuir significados ao caos da miscegenação cultural e manifesta na construção da realidade para tecer o tecido social. Mesmo assim, o cartesianismo continua como um dado insepulto desde sua projeção e assunção como regra a partir do século XVII.


A ideia de continuidade do passado como elaborador da realidade presente para que os indivíduos se projetassem no futuro emerge hoje (na vida real) como um dado sem sentido. A falta do entendimento da vida como um processo traduziu-se na anomalia de prestar-se a determinar o presente e não mais o futuro. Hoje, a partir dos recursos tecnológicos encaramos o fato mediado pela notícia simultaneamente à sua ocorrência. Todos vimos, em tempo real, o segundo avião detonar a bomba da insegurança estadunidense no dia 11 de setembro.

Livre do noticiário, coberto em tempo real, à Imprensa resta o papel de dar elementos para a interpretação da ocorrência do fato (que) realizado num tempo (quando) e num espaço (onde) está acessível no tempo presente. A significação vai refletir a praxeologia (como), a humanização (quem) e os motivos (porque). Ou seja, acontecimento, tempo e local são pré-textos para a inserção do homem e do entendimento da sua busca na preservação da espécie, com os meios tecnológicos que dispõe.


O raciocínio do passado torna-se indispensável ao entendimento que o futuro da Imprensa está na construção de uma realidade extemporânea ao cartesianismo, de uma forma complexificada. Para isto é necessário a retomada do conceito primordial de enciclopédia como "aprendizagem que põe o saber em ciclo", conforme nos sugere Edgard Morin. Ciclo que se repete em modelos de espiral, como um labirinto, e que se traduz em complexificações a cada nó epigenético

{a epigênese diz respeito a um processo de desenvolvimento definido por Aristóteles (384-322 aC)}. E entendendo assim o jornalismo ocupa o local do fio de Ariadne que trouxe Teseu de volta à realidade.





O Ataque as torres gêmeas marcou uma nova era no jornalismo.


Recorte I: pontos de vista


No passado, a sociedade racional, nos legou e ao jornalismo a busca da verdade única, outro dos princípios cartesianos. A visão einsteniana de relatividade nos sugere que tudo é relativo, inclusive a verdade. O conceito jornalístico de verdade, então passou para o campo da veracidade que se pode entender como aquilo passível de crença. E, como organizador referencial transmutou-se como dado para a busca do sentido. Hoje em dia o fato se dá em pelo menos 360 pontos de observação. Trezentos e sessenta ângulos de entendimento da sua ocorrência.


Isto não é de difícil compreensão se aceitarmos que, a partir do jornalismo “on-line”, a notícia acontece, em nível mundial, no mesmo tempo do fato. Diferente de 1889 quando o fato e notícia se distanciavam em proporção direta ao espaço. Em Mato Grosso sabemos que houve momento em que isto se dava em 20 dias. (A Imprensa mato-grossense publicou a comemoração do aniversário do imperador Pedro II, no dia 2 de dezembro de 1889, quando ele já rumava para seu futuro, longe da República Brasileira. Esta só foi proclamada, nas páginas do jornal Themis Mato-grossense, e conseqüentemente na realidade cuiabana, no dia 5 de dezembro do mesmo ano).


De certa forma, apesar de todas as evoluções (a imprensa moderna que emerge com a publicação de notícias, a partir de Gutemberg, por meio de Willian Caxton e suas notas oficiais e passou a sustentar as idéias do renascimento e do liberalismo e foi atingir a massa “livre” com a urbanização da Europa por meio da reportagem em 1702).



Recorte II: a volta para o futuro



A modernidade gerou a Imprensa no Século XVII como uma alavanca da cosmovisão liberal. No século seguinte quando a imbecilidade ainda discutia, no meio paroquial, se o mundo era ou não redondo (e, tardiamente, se a terra girava ou não em torno do sol) passou a funcionar no contra fluxo da disseminação das ideias. Nos salões eruditos das elites do liberalismo, do século das luzes, revivia processos inquisitoriais do recente e combatido período das trevas, como muito revela Michel Foulcout no seu As palavras e as coisas.


O Jornal viveu dias de glória.


Na idade média da modernidade o obscurantismo e a matilha progressista condenaram inquisitorialmente o médico Frans Anton Mesmer ao esquecimento histórico. E a sentença foi dada por eminências como Lavoisier, Flanklin e Guilhotin. (O primeiro é aquele do nada se perde tudo se transforma: o 2° o inventor do pára-raio e do processo de edição jornalística como o conhecemos hoje e, Guilhotin, que foi o homem que literalmente ajudou a aristocracia a perder a cabeça, com um de seus inventos: a guilhotina).


Na época o jornalismo nada escreveu sobre Mesmer que por não perder a referência do passado encontrou a sua maldição. Baseado em Paracelso (que definiu as regras da homeopatia na virada do século XV) aprofundou a relação entre o macro e


o microcosmo e constatou na tese "De Influxo Planetarum In Corpus Humanum" a influência dos planetas sobre a matéria viva. Descreveu hereticamente as influências no ser humano dos lados direito e esquerdo do corpo humano (sequer chegou ao cérebro). Era demais para o conhecimento da época.


Negado pelas luzes do liberalismo viria a tornar-se nos séculos seguintes, ele próprio, o passado de pessoas como Charcot, Freud, na vertente científica/racional. E na versão mística/emotiva do pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail (conhecido como Allan Kardec) estabeleceu as bases da doutrina espírita. Fenômenos presentes até hoje na construção do nosso futuro.

A imprensa também nada escreveu sobre Vassilli Kandinski, que nos primeiros anos do século XX, olhou para o passado, tentando uma compreensão do impressionismo e chegou à conclusão de que a forma, nas artes plásticas estava ultrapassada. A constatação projetou uma nova percepção estética para o mundo gerando diretamente o surrealismo de Pablo Picasso, Paul Klee etc. E, mais ainda abriu os caminhos para as matrizes de pensamento contemporâneo.


Recorte III – Jornal do mundo


Estas manifestações humanas do passado nos ajudam a compreender quando o The New York Times, em sua edição do dia 26 de julho (de 2005) aponta como jornal do futuro o inexpressivo "The Lawrence Journal-World", um jornaleco de menos de 20 mil exemplares, com mais de 100 anos de existência (1891), editado numa cidade de 85 mil habitantes “que destaca notícias de cidade pequena, mas de modo algum é restrito por uma mentalidade pequena”. {O jornal fica na cidade de Lawrence no Kansas. Uma cidade que se olhar para o seu passado recente verá Willian S. Burrougs (morto aos 83 anos na cidade em 1997) dizendo que “...as pessoas nunca vão abandonar totalmente a leitura”. E que descrevia a realidade apontando para a presença de estruturas arcaicas em eterno conflito na construção de nossa realidade em que “tudo é permitido". Burrougs, também considerado um fora-da-lei da literatura contemporânea, dividiu com Jack Kerouak os principais dilemas da geração Beat (precursora do movimento hippie).


No passado de sua obra estão as relações entre o mundo novo de Aldoux Huxley, o metamorfoseamento de Kafca e a contra sociedade de George Orwel. Nas parcerias o paradisíaco Kurt Corbain e, se não todos, a maioria dos hippies, Punks e cyberpunks. Além é claro de figurar como influência de passado de filósofos como Gilles Deleuze e Felix Guatari e músicos como David Bowie e Lou Reed e até do escritor brasileiro Paulo Leminski}.

O NY Times não tem dúvidas: o diretor do jornal de Lawrence, Dolph C. Simons Jr., de 75 anos que mora na cidade, apresentada em Twister (o filme do ciclone) acerta quando define o seu trabalho. Ele, Dolph, se pauta pela tentativa de dar informação de uma forma ou de outra. “Oferece diretrizes para o progresso” nos seus objetivos gerais. E revela “uma crença comum na qualidade, uma profunda ligação com a comunidade de Lawrence e uma constante reinvenção da relação entre suas empresas e os leitores, espectadores e anunciantes”. Esta relação é redefinida por Rob Curley de 34 anos diretor de novas mídias da World Company. Ele afirma que no melhor estilo Cremilda Medina ou Ricardo Noblat que acredita “que o o jornalismo tem sido um monólogo há muito tempo” e aponta o momento como sendo perfeito para a abordagem diferenciada com seu publico. "Queremos que os leitores pensem que o jornal é deles, e não nosso".


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