• Ailton Segura

O trem das nove



No início da década de 70 ao pisar pela primeira vez numa redação de jornal fui logo sendo advertido: “Jornalista agora tem que ter texto final”. Confesso que não entendi o que aquele velho jornalista estava falando. Até então eu julgava que todos os jornalistas sabiam escrever.

Estava errado.


Apesar da história do jornalismo ter registrado a presença nas páginas de jornais de escritores como Vitor Hugo, Edgar Alan Poe, Charles Dickens, Gabriel Garcia Marques, Fernando Pessoa, Benjamim Flanklin, José de Alencar, Machado de Assis e tantos outros e de ser considerado uma porta de entrada da literatura abrigou muitos profissionais semialfabetizados. Até o ano de1969 para ser repórter não era necessário o domínio da escrita. Bastava um senso aguçado de observação e pronto. Era a condição mínima. Se soubesse escrever melhor ainda. Se não, os redatores acabariam suprindo a ineficiência técnica daqueles que tinham talento para a percepção do incomum. Neste ano foi editada a lei que regulamentou a profissão e a história mudou.


Para um principiante como eu que via o jornalismo por meio da leitura das suas páginas a advertência abrigava uma situação que eu não poderia imaginar ocorrer na redações. Mal sabia que havia uma lei e que jornalismo era profissão.


Fui criado no hábito de ler jornais. Aos domingos lia, na casa do meu avô, produtor rural em Hungria, um bairro de Cerquinho (SP) o jornal O Estado de S. Paulo. Durante a semana me deliciava com o jornal Ultima Hora, comprado nas bancas pelo meu pai, ferroviário na Estrada de Ferro Sorocabana. O jornal, tanto um quanto outro eram referência social e política. O Estadão atendia, com sua linha tradicionalista, os cafeicultores republicanos que se estendiam ao longo da Estrada de Ferro Sorocabana. O Ultima Hora, entre crimes fantasiosos e mulheres seminuas, discutia a realidade emergente de um Brasil incerto, golpeado pelas suas indefinições e pelos ataques da elite à Getúlio Varga.


Estação da Sorocabana em Sorocaba.


Em Hungria, pequena localidade de Cerquilho, a 160 km de São Paulo a chegada do jornal marcava diariamente a passagem do trem das nove uma vez que quase ninguém chegava ou partia dali. Era o mundo que, num pacote contendo jornais, se descortinava diariamente para alimentar as conversas dos mais velhos na cancha de bocha. Era o jornal que trazia as saborosas receitas de pratos que minha mãe e suas irmãs usavam para quebrar a trivialidade do arroz, feijão, bife e salada. Eram as histórias que interviam no meu imaginário infantil e expandiam o meu universo para além dos arrebaldes de uma cidade interiorana.


Mal sabia eu, naquela época, que pelas páginas dos jornais se havia construído e dado forma ao mundo moderno a partir do Século XV. O mundo que nos abrigou da educação doméstica aos bancos escolares. Incentivando o pensamento livre e a busca da verdade, atirando uma pá de cal ao mundo de heróis históricos como Giordano Bruno, Galileu Galilei e tantos outros que ousaram pensar que terra não era plana e muito menos o centro do universo. Estes foram vítimas da insanidade medieval da inquisição. Também ignorava que nessa época Jean Jacques Rousseau, John Lock, e Benjamim Franklin fizeram do jornal a chave mestra para veicular as ideias de liberdade que sepultaram o feudalismo e contaminaram o mundo disseminando o germe da liberdade, da igualdade e da fraternidade do iluminismo. Uma chave que além de tudo despertou nas populações o senso comum para lutar contra a ignorância, mãe de todos os processos de dominação.


Estação em Hungria. Distrito de Cerquilho, local onde o jornal "O Estado de São Paulo" chegava diariamente.


Até então, voltando aos anos 70, momento em que eu dava os primeiros passos desta longa caminhada que nos coloca frente a frente que para exercer o jornalismo não se exigia um texto como o de Paulo Barreto, o João do Rio, que migrou dos primorosos contos, crônicas e reportagens para ocupar a cadeira 26 da Academia Brasileira de Letras. Nas páginas do jornal é considerado o criador da reportagem no Brasil porque no seu trabalho jornalístico buscou a rua que não existia nos dicionários ou enciclopédias e que abrigava o repórter flanador, aquele que julgava que todas as coisas do mundo eram criadas simplesmente para o seu prazer. Tal qual o fizera Charles Dickens na Inglaterra.


Eram, literalmente, os anos do chumbo.


A produção intelectual do repórter retratando o mundo passava por um processo de produção que envolvia as etapas da apuração das matérias, da redação, da edição, da composição em linotipo, da paginação, da calandragem, da impressão e finalmente da espera no boteco, da rua São Bento, onde ficava o jornal Cruzeiro do Sul de Sorocaba. O jornal lido e relido durante todo o seu processo de produção: na redação e na paginação, principalmente, chegava pelas mãos do chefe de oficina, o velho gráfico Álvaro Zalla que ao pedir o derradeiro drink cumpria com o ritual cotidiano de avisar-nos que o jornal havia saído, como a nos liberar para o sono. Após mais de 10 horas de dedicação tínhamos, em mãos, o dia seguinte que iria, logo pela manhã, alimentar o imaginário da população de Sorocaba.


Aquelas páginas serviam para alavancar negócios, legalizar casamentos e ações judiciárias, empregar pessoas, corrigir homens públicos e até mesmo entreter toda sorte de ociosos do dia, que buscavam a sorte das loterias, o destino no horóscopo e a superação de potencialidades no rebuscado das charadas e palavras cruzadas. Além disso informava sobre os acontecimentos do ontem, registrando-os no cartório da história, após despertar as devidas emoções. Gerando o sentido grandioso do cotidiano, distribuindo cidadania e até educando os pré-adolescentes que a partir de cinco horas da manhã saiam às ruas com seus pacotes de entrega de 50, 100, 200 jornais, um para cada casa que via no jornal um instrumento indispensável para a sua vida.


Como jornalistas, então, vivíamos um tempo diferenciado. O tempo do ontem. Éramos no conjunto, sem sombra de dúvida a vida da cidade de ontem, no dia seguinte. Traduzíamos a importância dos acontecimentos. E, com isso, tecíamos o tecido social dando significações às coisas do cotidiano. Alimentando ações. Orientando...


E, agora, teríamos que ter o texto final. Além da percepção, de uma forma poética de ver o mundo, naqueles anos 70, o jornalismo ganhava um perfil profissional que sempre teve, mas que nos últimos 100 anos havia sido empanado pela visão romântica da sociedade. Uma visão que exigia alternar o poder e a humildade de “não ser nada, jamais poder ser nada e a par de mim trazer todos os sonhos do mundo”, como identificou Fernando Pessoa no poema A tabacaria.


Eram, metaforicamente, anos de chumbo em que o país, sob o jugo da censura aos meios de comunicação, exigia técnica e criatividade para o exercício da liberdade de expressão. Eram momentos em que a tônica maior era a liberação do consumo com a substituição das quitandas pelos supermercados. Implantava-se no país, a ferro e fogo, o sistema capitalista apadrinhado pelas casernas e enquanto os repórteres de política buscavam as luzes que se acenderiam no fim do túnel as editorias de economia carreavam a classe média para o milagre da casa própria, do carro próprio, dos cofrinhos de poupança.


O fiado que era para ser pedido só amanhã, rebatizado de financiamento, agora estava presente no cheque especial, no cartão de crédito e nas prestações a perder de vista, possibilitando o ingresso nos lares das TVs que reforçavam a ideia de um padrão de vida onde a eletrônica não poderia mais ficar ausente.


O jornal amordaçado e alijado da discussão crítica deste processo acaba indo à TV onde se torna espetáculo de imagem, produto de consumo e alimenta o cotidiano gerando novas necessidades. Relegado a um segundo plano os jornais rebrotam em todos os cantos como alternativa de não deixar calar a voz das minorias que se mantinham inoculadas do vírus do consumo desenfreado. Tal qual às vésperas da proclamação da República os pasquins emergem desordenados, como tribunas, alimentando com os poucos recursos disponíveis o que ainda sobrou de visão crítica na sociedade.


A imprensa dividiu-se na grande imprensa e na imprensa alternativa. A primeira voltando-se para o permitido da economia mostrava os caminhos do capital, sob a Égide do Departamento de Estado Norte-americano, que investiu (somente na década de 90) US$ 270 milhões para preparar jornalistas buscando para a visão funcionalista e pragmática que se tornaria pasteurizada e revelaria uma crise nos jornais.


Faz algum tempo, assistindo a uma dessas competições comuns na televisão norte-americana, nas quais os contentores respondem perguntas sobre os assuntos mais diversos (“quiz programs”), tomei conhecimento de que o Rei Jorge III, da Inglaterra, teria registrado em seu diário, no dia 4 de julho de 1776, algo como: “Não aconteceu nada de importante no dia de hoje”. Apesar da proclamação da Independência dos Estados Unidos.


Para o homem contemporâneo, que pode assistir pela televisão, em tempo real, ao bombardeio de Belgrado por forças da OTAN (abril de 1999), seguido das explicações para o ato apresentadas ao vivo pelo Presidente dos Estados Unidos e pelo Primeiro-Ministro britânico, soa como absurdo o fato de que o monarca inglês ignorasse que a sua principal colônia se declarava independente naquele dia. Na verdade, o episódio retrata as profundas diferenças na condução da atividade humana decorrentes da evolução das comunicações ao longo dos mais de dois séculos que separam um e outro acontecimento.

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