• Ailton Segura

Mais de 500 anos de registro

Das primeiras crônicas, de Fernão Lopes na Torre do Tombo, em Portugal (1434) aos efeitos do “tombo” das torres gêmeas do World Trade Center (2002) há uma linha, complexa, que delineia o jornalismo. Esta linha, que determina os ciclos de desenvolvimento da atividade, representa os momentos de transição e evolução da prática jornalística e determinam ao longo do tempo um conjunto de teorizações do jornalismo, definindo uma estética, e fixando conceitos que já serviram à modernidade.


O jornalismo foi por muito tempo algo atrelado às verdades absolutas da dinâmica que envolveu o desenvolvimento da sociedade moderna. Assumindo uma feição do próprio desenvolvimento da modernidade, tornou-se sensível às modificações sociais e mais ainda: impulsionou mudanças, reafirmou valores e tornou-se o reflexo de cada momento que a humanidade viveu nesse tempo.


Cada vez que as sociedades mudaram de pele ou cada vez que a linguagem das sociedades se modifica de maneira radical, os primeiros sintomas dessas mudanças aparecem no jornalismo. Quem ler atentamente a imprensa inglesa dos anos 60 reencontrará nela a essência das canções dos Beatles, assim como a imprensa californiana dessa época refletia a rebeldia e o heroísmo anárquico dos beatniks ou a avidez mística dos hippies. No grande jornalismo se pode sempre descobrir - e se deve descobrir, quando se trata de grande jornalismo - os modelos de realidade que se avizinham e que ainda não foram formulados de maneira consciente.(Martinez)


O jornal, que desde as suas primeiras letras se pautava pela abordagem de fatos políticos, sociais e culturais, já foi encarado como um espelho dos acontecimentos que envolvem a vida da sociedade, interferindo no dia a dia das pessoas. E desde o início, se não gerava sentido na sociedade, alavancava o novo pensamento científico, religioso e político que gerou o discurso do mundo moderno, sempre se pautando pelos fatos relevantes que implicavam em aspectos de evolução de sociedade ou até mesmo de grande repercussão social.


Os relatos jornalísticos contendo a notificação de fatos diversos recentemente ocorridos onde quer que seja, segundo Peucer, devem considerar a sucessão exata dos fatos inter-relacionados e suas causas, considerando que o relator deve limitar-se apenas a uma simples exposição dos mesmos, restringindo-se ao reconhecimento dos fatos históricos mais relevantes. Tais relatos distinguem-se dos relatos históricos, pois podem ser ordenados “como um fio contínuo, conservando a sucessão precisa dos fatos históricos”. Assim, o relato periodístico trata também de “coisas singulares”, como as tempestades, inundações e terremotos, “as obras ou os feitos maravilhosos e insólitos da natureza ou da arte” (parágrafo XV). (Caputo)22 Marta Vieira Caputo, in De Tobias Peucer à Internet



Tobias Peucer apresentou em 1690 "De relationibus novellis" considerada a primeira tese doutoral sobre jornalismo.


A necessidade de segmentação dentro da mais pura visão fragmentária da modernidade, aliada à ampliação do mundo, levou a especificações que, dentro de uma estética própria se assume com funções especialistas como a do jornalismo cultural.


Sobretudo quando pensamos na informação cultural, é preciso ter presente que diversas estratégias de agendamentos são frequentemente utilizadas para a manipulação e publicação dos acontecimentos neste campo narrativo. As pautas e os recursos de seleção do quadro informativo de bens culturais são procedimentos recorrentes para a publicação do que será tido – ou pelo menos mantido pelos meios de informação – como cultura na sociedade contemporânea. Em linhas gerais, o jornalismo cultural representa uma especialidade da produção jornalística que se volta a examinar as expressões artísticas, a partir de suas diversas manifestações estéticas: cinema, música, literatura, teatro, artes plásticas e afins. Isto posto, importa-nos imensamente perceber como se estrutura a comunicação entre tais formas estéticas no cotidiano dos jornais e revistas que se propõem a falar de arte no universo contemporâneo.


O primeiro passo para uma abordagem do jornalismo e de sua intervenção na cultura é vislumbrar a Fênix renascida desta encruzilhada entre a modernidade e algo que nem sabemos ainda o que seja, determinado por uma espécie de neo-renascimento ancorado nas tecnologias emergentes.


Uma coisa é patente. Desde sua pré-história o jornalismo desenvolve procedimentos que mesmo quando se especializam permanecem imutáveis. Se pensarmos como Cremilda Medina ou Daniel Pizza podemos entender o grau de importância do jornalismo como difusor da cultura.


Medina leciona que:

A cultura passa em todos os espaços e tempos do jornalismo. Não há narrativa nem matéria jornalística que não seja produção cultural, o que se diz da realidade à nossa volta é representado simbolicamente no discurso jornalístico. (MEDINA, 2007, p.32)


Fazendo eco ao seu pensamento Pizza revela:

A cultura está em tudo, é de sua essência misturar assuntos e atravessar linguagens( PIZZA, 2004,p.7)


No entanto, podemos defender que nem tudo que é publicado se enquadra nas categorias que remetem à cultura. Ao estabelecermos, filosoficamente, os conceitos de jornalismo como abordagem de um fato e o papel do jornalista como o mediador entre o fato e o leitor seremos obrigados a reconhecer também que cultura, transformada em variedades na fragmentação editorial moderna nos dá conceito amplo e incerto.


Por estas concepções é que necessário pensar o jornalismo que trata dos bens simbólicos da humanidade situados em categorias que melhor definam o papel de representação da realidade e da cultura, seja no seu conceito mais amplo ou no conceito específico que nos remete às artes e ao show business.


Ainda no conceito de abordagem dos fatos vamos encontrar as possibilidades do jornalismo ser ser praticado nos gêneros informativo e interpretativo (por meio da notícia e da reportagem), no gênero opinativo (artigo, crítica, comentário, resenha, ensaio) e na crônica, tomada como gênero específico, um híbrido do jornalismo e da literatura, que nos dá como função a reflexão sobre um fato qualquer, de preferência atual.


A crônica marca uma importante transição da oralidade para a escrita. Como elemento de abordagem do fato assumiu o papel cartorário de registrar os feitos lusitanos, passando a povoar as páginas dos jornais três séculos depois da sua inserção na Torre do Tombo. Favorecendo uma longa conversa cultural, compondo a alma dos folhetins. Houvesse jornal em 1.500 e Pero Vaz de Caminha, ganharia uma manchete ao reportar a descoberta do novo mundo português.


Caminha, no entanto, foi um enviado especial que tinha pleno grau de confiança da corte portuguesa e tinha como tarefa no Brasil relatar a chegada da esquadra de Cabral ao novo mundo e também o caminho para as riquezas das Índias, continuidade da viagem. Fidalgo e alto funcionário da corte, sua atuação pode ser considerada um “bico” profissional, uma vez que seu destino era cuidar das riquezas reais em Calicute, onde faleceu, em batalha, antes do término de 1.500. E foi como uma espécie de “bico” profissional que se praticava a crônica antes do jornalismo assumir sua feição de profissão na divisão do trabalho.


O jornalismo profissional, como ocupação diária seja de escritores ou de “repórteres” com dedicação integral aparece no contexto social no século XVII, com o Leipzig Zeitung, na Alemanha, manifestando sua vocação de desenhar o cotidiano da sociedade. Até então servia para o ganho de impressores como o inglês Willian Caxtlon, introdutor da tipografia no Reino Unido, que sob a égide da produção em série a partir de uma matriz e mediante concessão real, imprimia notícias de interesse da corte para comercializar, enquanto dedicava-se à sua atividade principal, imprimir livros.


De Vinne, T. L. : The invention of printing. London, 1877



O jornalismo nasceu identificado pelos mesmos componentes que o determinam sua estética em dias atuais: universalidade, veracidade, clareza, simplicidade, precisão e concisão., teorizados por Tobias Peucer trinta anos depois do surgimento do periódico Leipizig Zeitung.

Agregado a esta estética o mesmo Peucer ainda teorizou, baseado no que podemos chamar de heurística do fato:


... Peucer socorreu-se dos antigos filósofos e retóricos gregos e romanos, como Fábio Quintiliano ou Cícero, que, entre outros, contributos para os estudos jornalísticos, há mais de dois mil anos foram fixando para a posteridade a fórmula dos "elementa narrationis" para contar novidades (circunstâncias de sujeito, objeto, lugar tempo, causa e maneira, ou seja, “quem? “, “o quê? “, “onde? “, “quando? “, “porquê? “e “como?”


O jornalismo, que emergiu como um instrumento de proselitismo aristocrático, tornou-se a principal ferramenta na consolidação da modernidade com a difusão da primeira revolução científica. Destacou-se como uma alavanca dos movimentos sociais e religiosos (protestantes/liberais), inaugurou bases de funcionamento e de compreensão. Até então imprimia em sua execução a postura amadora do diletantismo da nobreza e o viés ideológico da militância liberal/religiosa, principalmente composta pelos mentores da Reforma religiosa.

Posteriormente, com a consolidação do liberalismo, cedeu espaço para a manutenção do novo paradigma e assumiu-se como instrumento de vigilância dos valores da modernidade, relegando a um segundo plano a difusão de novas ideias e práticas que remetiam à crítica.


Neste momento tornou-se necessário entendê-lo a partir de “gênesis” como um processo de abordagem do fato e anexar à sua prática ações claras e inequívocas como as de coleta de dados para apuração da matéria jornalística: elaboração de texto, com ênfase nos elementos da narrativa; organização e hierarquização de informações, e difusão das mensagens. Incorporando-o no pensamento científico que determinou a ciência moderna.


Mesmo assim neste primeiro momento histórico surgiam os primeiros humores que levariam Juan Luiz Cèbrian 6 o fundador do jornal El País a defini-lo, na contemporaneidade, como uma atividade de “origem canalha com pedigree régio”.


Se no primeiro momento serviu para a difusão do novo paradigma do mundo ocidental, abrigando escritos de Locke, Rousseau, Voltaire, Diderot que reconstruíam a Europa7. Num segundo, bafejado pela sua característica revolucionária no que diz respeito ao modo de produção em série, integrou-se ao sistema capitalista emergente agregando aos propósitos do poder os interesses do capital.


A necessidade de ampliar o leque de leitura em função da crescente alfabetização, incluindo-se aí o universo feminino legou-nos o “folhetim”, como instância de manifestação da cultura, então já dividindo o espaço dedicado às histórias espetaculares, informações sobre inovações científicas e conceitos do paradigma liberal/moderno8. Paralelamente na América Benjamin Franklin (em 1729) já fazia da Gazeta da Pensilvânia um negócio. O jornal passou a ser muito mais do que um difusor das ideias (do Iluminismo, das novidades científicas e da cultura) como até então havia sido. Franklin, ciente da função educativa do jornal, buscou na publicidade o financiamento para fazer frente aos seus custos, ampliar a tiragem e exercer um papel que antecipava a sociedade de massas.


Sistematizou a venda do espaço publicitário e organizou a leitura do seu jornal, criando o protótipo da segmentação e da edição jornalística, na virada do século XVI para o século XVII. Envolvido com o desenvolvimento da então colônia inglesa, vislumbrava no jornalismo a possibilidade de disseminar a cultura e as novidades do novo mundo. Alguns anos depois Franklin assumindo cargos da política, envolvido na luta e consolidação da Independência dos Estados Unidos, viu-se obrigado a deixar a tarefa de fazer jornal a terceiros, sempre sob sua inspiração.


Esgotava-se por aí o primeiro momento do jornalismo. Paralelamente na Inglaterra de 1702, surge a 11 de Maio de 1702 o jornal The Daily Courant demarcador dessa segunda mudança. Mesmo mantendo os elementos da estética da notícia e a heurística do fato seu editor Samuel Buckley definia a publicação baseando-se em um conceito de objetividade.


Tentava resgatar a imagem do jornalismo a partir do relato preciso dos fatos, sem comentários. Ele imaginava com isso imprimir veracidade à sua publicação, o que pelo jeito conseguiu. E ainda na aurora dos tempos modernos, agregava ao caráter doutrinário das publicações jornalísticas a intenção da reportagem, definida por Moniz Sodré como a extensão da notícia.


A partir daí linguagem jornalística, especificamente os gêneros informativo (notícia) e interpretativo (reportagem), encontraram um amplo caminho para ser teorizada pela primeira vez, na Teoria do Espelho, uma espécie da metáfora da fotografia que criaria o mito da objetividade, transportando-o do fato para o jornalista.


Os fatos, a partir de então, deveriam ser apresentados descritivamente para o leitor tirar suas conclusões. Coincidentemente, era justamente o momento de demarcação de espaços conquistados, ou pelo protestantismo ou pelos liberais ou pela ciência, que já avança sem as dúvidas que afligiram principalmente Renèe Descartes e Blaise Pascal.


Se no primeiro momento temos o inicio da transposição da oralidade para a escrita, com a representação das ações na reelaboração do mundo. No segundo momento vemos surgir grandes histórias do cotiano como “Nicholas Nickleby”, fruto do desvio de Charles Dickens de sua atividade como repórter do Parlamento Inglês para atuar como crítico dos aspectos transversais que faziam a Londres da sua época uma cidade inóspita para os cidadãos neo-urbanizados, atraídos pela pré-revolução industrial. Da mesma forma Willian Stead amargou dois meses de prisão por ter iniciado o que chamaríamos hoje de jornalismo de imersão.


“Em 1885 ele chocou o mundo com suas revelações da prostituição e da escravidão branca, na cidade de Londres, em uma série de quatro artigos enfocados como um “Tributo a Babilônia Moderna”


A reportagem que mudou as leis inglesas no tratamento a menores de idade, assumiu-se de importância, tanto quanto os textos doutrinários do positivismo e demarcou uma nova função do jornalismo, a de vigilância do meio social.

As ações inglesas de Dickens e de Stead, ao abordarem fatos do cotidiano da vida inglesa transformaram-se em elementos de cultura e transpuseram o fio que demarcava uma sociedade de barbárie, chamando a atenção da sociedade para a necessidade de mudanças, criando uma opinião pública favorável a transformações sociais.


No século XXI o mundo assiste, perplexo, a destruição do principal ícone do "american way of life" num cenário real armado pela Al-Qaeda. É a consolidação do que Mcluhan definiu como Aldeia Global, ao colocar os olhos de todo mundo na ilha de Manhattan, sem, representação. Ali assistimos atônitos a ocorrência do fato. Só depois, pelo jornalismo, formos entender que militantes a Al Qaeda haviam cravaram seus punhais no coração financeiro do mundo, após dominar os boings 737 e 767 e conduzi-los para o Rio Hudson para semear a morte e destruição. Um fato exposto aos olhos sem mediações ou representações.


A apresentação da tragédia espetacular, ao vivo pela televisão, transforma a ação do jornalismo informativo, uma vez que a notícia, como representação do fato, foi sufocada pela transmissão ao mundo do fato, sem nenhuma representação, pelo menos no ato da sua ocorrência. Restou ao jornalismo desvendar o sentido da catástrofe que chocou o mundo.


A ação contra o World Trade Center pode ser encarada como demarcatória de um novo papel da Imprensa. Esta busca, de uma forma latente já vinha se desenvolvendo e emergindo como a vocação de representar o fato gerando sentido visando os aspectos da compreensão para o exercício da cidadania.


O jornalismo então emerge com o objetivo de ocupar uma instância do espaço público para levar os leitores à reflexão (por meio da crônica); da revelação dos “fatos correntes” (por meio do jornalismo informativo): do desenvolvimento da opinião pública, (por meio do jornalismo opinativo) e ainda, numa concepção mais contemporânea, gerar sentido para os fatos do dia-a-dia numa extensão do notíciário (a reportagem).


Ao derivarmos esta função para a segmentação cultural agregamos a ela a utilização de todos os recursos de edição na abordagem de fatos para conduzir o leitor à compreensão de sua época. Este dado de complexificação exige do jornalista uma intimidade que possibilite a cobertura jornalística com a disposição de abordá-lo da maneira mais conveniente, dentro das classificações clássicas da estética e de gênero.


Neste momento surge a exigência de uma definição proativa da pauta, que ao fugir da lógica dos hard news (que invariavelmente contemplam o show business) revelará o grau de complexidade destes tempos da neo-renascença, atuais e a partir de uma transversalidade determinada pela cultura abordar aspectos da economia e política, de forma que o leitor se sinta contextualizado, dentro de um linguajar próprio, com as analogias para amenizar a complexidade de abordagem que a contemporaneidade exige.


Muito mais que publicar os fatos correntes, o jornalismo de hoje se assume com propósitos de gerar sentidos num momento em que o tempo do fato que estamos abordando se confunde com o tempo da notícia publicada.

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