• Ailton Segura

Cerrado – conheça os frutos da terra que é a caixa d’água do país

Nos últimos anos, o Cerrado tem despertado a atenção do país pelas queimadas ilegais e pelo clima cada vez mais seco e quente. Neste mês, em que se comemora o dia nacional do segundo maior bioma brasileiro, em 11 de setembro, é importante também olhar para as contribuições que oferece para a cultura e os costumes deste país, além da natureza.


Com 5% de todas as espécies do planeta e 30% das espécies do País – mais de 32% das quais, endêmicas – não é de se admirar que entre as principais riquezas do Cerrado destacam-se os produtos locais como baru, pequi, buriti e babaçu, só para citar quatro dos mais conhecidos.


Cultivados principalmente por agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais e a população indígena, esses itens são fundamentais para a segurança alimentar e integram não só a dieta alimentar mais tradicional, como também já figuram nos cardápios de renomados chefs e restauranteurs nacionais.

A atuação dos Povos e Comunidades Tradicionais e Agricultores Familiares (PCTAFs) é essencial para conservar a biodiversidade dessa região e seus frutos. Além de melhorar a vida e a alimentação das pessoas, o cultivo desses produtos preserva a paisagem.

Uma das principais características da agricultura tradicional local é de estar diretamente ligada ao modo de vida das populações. Dessa forma, os povos e comunidades tradicionais da região atuam como verdadeiros protetores da biodiversidade.

O que a terra produz é usado na alimentação, na moradia, na fitoterapia e na confecção de peças para uso doméstico. Conheça algumas dessas riquezas da terra emprestam suas cores e sabores para receitas que podem ser encontradas no livro “Cerrado em sabores“, de Denise Barbosa-Silva, Janaína Diniz,Tainá Bacelar Zaneti e Yokowama Odaguiri Enes Cabral (Ed. Rede Sementes do Cerrado, 2016). Conheça alguns desses ingredientes:

Babaçu – sua extração é uma atividade importante para gerar renda e conservar o bioma. Na grande maioria dos casos, a colheita é feita por mulheres, especialmente no Maranhão, Piauí, Tocantins, Mato Grosso e Pará. A relação delas com essas palmeiras é tão intensa que levou à criação, em 1997, da lei do babaçu livre, que proíbe o corte das árvores adultas e o uso de agrotóxico nas mudas e palmeiras jovens. O fruto é usado no artesanato (confecção de biojóias, luminárias etc), preparo de licor, em itens de higiene pessoal, como sabonetes e sabão, além da alimentação, com a farinha empregada no preparo de mingaus, pudins, bolos e pães.


Baru – estudos comprovam que o fruto pode substituir o amendoim, a castanha de caju e a do Pará em diversas receitas, como paçocas, biscoitos e barras de cereais, entre outras, devido ao bom aporte nutricional, pois é rico em proteínas, fibras, ácidos graxos e minerais. Este fruto do baruzeiro, árvore nativa da região que pode alcançar até 20 metros de altura, tem uma casca dura que em seu interior tem uma espécie de amêndoa. Até Concessa, personagem do YouTube que se tornou famosa por seu sotaque mineiro, já fez vídeo sobre esta jóia do Cerrado, que é considerada afrodisíaca, embora não tenha ainda comprovação científica.


Imagem: Felipe Abreu


Buriti – sua árvore pode alcançar até 30 metros de altura e 50 cm de diâmetro. Cada cacho produz em média 500 frutos. Típico do Cerrado, habita terrenos alagáveis e brejos e floresce praticamente o ano todo. A colheita ocorre entre abril e agosto. Seu óleo é muito usado na confecção de produtos de beleza e de higiene. Mas quem conhece o buriti sabe que é possível aproveitá-lo também na culinária, como nesta tradicional receita de doce de buriti.



Imagem: Bento Viana



Pequi – o fruto, conhecido nacionalmente, é o melhor exemplo de como a riqueza gerada em torno de uma espécie beneficia os coletores tradicionais e respeita o meio ambiente. É coletado no chão, pelas famílias, e não na árvore, porque isso poderia prejudicar o pequizeiro e o fruto. Depois da colheita, é usado para preparar polpa, óleo, castanhas, farinha, creme e conservas. A renda gerada com sua venda é a principal fonte de receita de centenas de famílias da região. E sua presença é garantida em pratos tradicionais como arroz com pequi ou frango com pequi.


Relevância do Cerrado – Além das riquezas da biodiversidade, o Cerrado é importante para o Brasil porque abriga 8 das 12 principais bacias hidrográficas. Não por acaso

esse bioma recebe o nome de caixa d’água do país. Sua conservação é essencial para preservar o berço das águas, que impactam diretamente o pequeno e o grande produtor, como também milhares de pessoas no país e nas nações vizinhas.


Esse bioma, que ocupa cerca de 25% do território nacional, pede ajuda. Levantamento inédito, realizado pelo MapBiomas e divulgado em agosto, revelou que 44% de toda a área queimada no Brasil entre 1985 e 2020 fica no Cerrado. A região queimada a cada ano neste período equivale a 13 vezes o Distrito Federal. Por esses dados, o Cerrado ocupa a vice-liderança entre os biomas que tiveram seu território devastado pelo fogo. Perde apenas para o Pantanal (57%).


O caso da água não é menos preocupante. O país está literalmente secando. O estado com a maior perda absoluta e proporcional de superfície de água no mesmo período analisado pela equipe do MapBiomas foi o Mato Grosso do Sul, com uma redução de 57%. Se em 1985 o estado tinha mais de 1,3 milhão de hectares cobertos por água, no ano passado eram pouco mais de 589 mil hectares.


Essa redução se deu basicamente no Pantanal, mas vale lembrar que as nascentes que alimentam essa região estão no Cerrado. Em segundo lugar está o Mato Grosso, com uma perda de quase 530 mil hectares, seguido por Minas Gerais, com um saldo negativo, entre a água que entrou e a que se esvaiu, de mais de 118 mil hectares.

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