• Ailton Segura

As origens do velho NOVO JORNALISMO


Quando Willian Thomas Stead (WT Stead) assumiu o cargo de editor da Gazeta de Pall Mall, em 1883, não teve dúvidas: transformou o jornal à sua imagem e semelhança. Com isso criou o que hoje reconhecemos como o Novo Jornalismo. A denominação e do poeta e educador Mattew Arnold, considerado o terceiro maior poeta inglês, renomado palestrante em Oxford, e parceiro das discussões com Stead sobre as posturas humanas.

Antes disso Stead havia trabalhado no The Northen Ecto desde 1870, onde aos 22 anos de idade inovou na logística de circulação do jornal, enviando-o para mais de 300 quilômetros de distância, aproveitando-se da malha ferroviária que começava a surgir na Inglaterra. Ele teve a idéia de usar as conexões ferroviárias que transportavam carvão, principalmente, para aquecer a Inglaterra e agregava um público de mineiros, excluído dos centros, como a cidade de Londres.

Com esta ação também contribuiu para a popularização da leitura, com o aumento das tiragens, ampliando seu público leitor com os trabalhadores das minas de carvão da região e todos aqueles que passaram, ao longo da ferrovia a receber o impresso pela via férrea, com a novidade na circulação.

Stead foi um inconformista até sua morte no naufrágio do Titanic (1912). O navio o havia contratado para ser o assessor de imprensa da primeira viagem. Inovou no jornalismo desde cedo quando aos 22 anos ao colocar o jornal no trem e ao editá-lo assumindo as campanhas que obrigavam sociedade a criar um novo tempo com a revolução industrial, decretando o fim dos usos e costumes da idade medieval.

Diferente do jornalismo que publicava os ensaios do “seu” novo mundo moderno e lutava pela sociedade liberal desde o século XIV, Tornou-se um inconformado pelo fato das informações terem um acesso limitado. Por isto, democraticamente escrevia seus artigos procurando ouvir a população sobre seus pontos de vista, confrontando com isso o ponto de vista da elite de autoridades e dos ideais da emergente sociedade burguesa.

Estes, propagandeavam seus atos geralmente com uma abordagem otimista dos seus próprios feitos. Os políticos, principalmente, viviam e tinham o discurso diferenciado das “massas” e os jornais reproduziam suas falas, alienadas daquilo que o povo via no dia e dia e sentia na pele.

A metodologia de Stead levou-o a ser um pioneiro na prática de entrevistas, ouvindo as falas da população e discutindo com pessoas do povo os problemas que para as elites só eram pintados como soluções miraculosas. Normalmente o cidadão comum via um mundo diferente daquele das autoridades que consumiam em benefício próprio o dinheiro dos impostos.

Até então o jornalismo ou vinha embutido nos ransosos artigos que visavam alterar/reforçar a opinião pública em função da Revolução Industrial e da Modernidade. Este modelo consolidou-se a partir de 1702. O jornalismo questionava isso e pregava, como o primeiro diário inglês o Daily Courant, ser um “jornal imparcial” recomendando, à publicação, apenas a descrição dos fatos sem comentários.Sem os artigos de fundo que consolidaram a Modernidade, estabelecendo um novo método de entendimento social.

Parlelamente, no século XIX os jornais passaram a deliciar seus leitores com a literatura de rodapé, os Folhetins, (escritos ficcionais) publicados em capítulos nos moldes das fotonovelas. O noticiário vinha, com sucesso, emanado dos comentários do jornalista, dando um caráter impressionista ao fato. Daí tiramos a primeira das características da reportagem que se completa com o fato (garantido na objetividade), a precisão narrativa e a humanização dos relatos.

As páginas dos jornais também abrigaram cronistas e escritores. Charles Dickens, um dos maiores escritores do Reino Unido, percorrendo o sentido inverso, saiu da realidade do seu trabalho como medíocre repórter do Parlamento Inglês para documentar como ficção o modo de vida da sociedade que sofria as mudanças de um perverso êxodo rural e tornou-se um dos maiores romancistas ingleses. Dickens, ia na contra-mão desta história. Ao perceber o trabalho inócuo dos parlamentares usava os recursos da rainha para tentar entender os resultados das novas leis da Inglaterra. Abordando num texto livre e de reflexão, a vida da poulaçao burguesa emergente.

Dickens que ingressou no jornalismo em 1832, viveu a plenitude da revolução industrial. Tinha por hábito usar suas anotações de repórter para escrever crônicas dos casos mais pitorescos que assistia e depois de ingressar no jornalismo (setorizado no parlamento como o que seria hoje um repórter político), reservava suas crônicas e contos para o Monthly Magazine e para o Morning Chronicle. Assinando com o pseudônimo de Boz juntou material para seu primeiro livro “Esboço de Boz”, publicado em 1835 em dois volumes, e que abriu caminho para outras 14 publicações .ao longo de sua vida. A vida mundana e a infância abandonada foram abordadas por Dickens a partir das suas anotações que fugiam da pasteurização do noticiário inóquo dos políticos que pagavam o seu salário como repórter do Parlamento Britânico.

O modelo de Stead iria consolidar-se com o passar dos anos. Até os dias de hoje. Eiji Yoshikawa publicou seus quase 200 capítulos de (1935 a 1938) e contou a transição do Japão, do Feudalismo à modernidade numa reportagem documenral, enfocando o perfil de Miyamoto Musashi, considerado o maior samurai japonês que viveu n século XVI.

O Novo Jornalismo de Stead nos legou trabalhos como Tributo à Moderna Babilônia uma série de reportagem sobre a prostituição infantil provocada pelo êxodo rural na Inglaterra, decorrente da urbanização durante a Revolução Industrial. Relatava o aumento da prostituição infantil quando os pais eram obrigados a vender suas filhas, às elites endinheiradas, ainda crianças, para conseguir dinheiro para o sustento da família, expulsa do campo pelo êxodo rural da atividade fabril. Após algum tempo, estas meninas, semiescravizadas, eram vendidas para prostíbulos e tomavam o rumo da prostituição.

As reportagens da Gazeta de Pall Mal, de Stead (publicadas de 6 a 10 de ojulho de 1885) monstravam como a elite inglesa passou da imoralidade sexual para ações criminosas ao abordar “a venda, compra e violação de crianças, a aquisição de virgens, a captura e a ruína das mulheres das famílias de baixa ou nenhuma renda. A sociedade alimentou o comércio internacional de escravos com meninas e atrocidades, brutalidades e crimes não naturais”. A vida na prostituição, invisível aos olhos da elite, alimentava cafetãos debaixo dos seus olhares coniventes.

Com as abordagens do problema pela Imprensa a opinião pública passou a pressionar o governo que se obrigou a editar e publicar uma lei a 1,885 conhecida como Stead`s Acts, dentre outras leis que alterava a faixa de proteção dos menores de 13 para 16 anos.

Cem anos depois de Stead o rótulo Novo Jornalismo passou a ser o “xodó” de um jornalismo decadente e surge nos Estados Unidos e no Mundo como uma alternativa saneadora de um estilo que inicialmente se adequou ao Daily Courant (o jornalismo informativo pasteurizado) com todos os seus desvios e se tornou inócuo. A reportagem conquistava espaço para abordagens mais aprofundadas de notícias, ganhava estatus semelhante à da literatura e deu novo fôlego para os jornais.

As reportagens de Stead, João do Rio (o acadêmico Paulo Barreto, flanador que criou a reportagem no Brasil no início do século XX), Eiji Yoshikawa, John Hersey, Hunter Thompson (Gonzo jornalismo) e de tantos outros anônimos que assumiam a autoralidade (tornavam-se autores) consolidaram um jornalismo de qualidade que ia além do noticiário de tragédias, guerras e crimes banais e receberam novos adjetivos aumentando o caos do jornalismo sem a consolidação da reportagem com características próprias (ênfase na narrativa, caráter impressionista, humanização do relato e objetividade do fato).

Num desrespeito a grandes jornalistas que se tornaram grandes escritores de ficção viraram “jornalismo literário”, “gonzo jornalismo”, e realçaram, principalmente nomes como Tom Wolfe, Truman Capote e Gay Talese, dentre outros que conquistaram o direito de criar a partir das observações de detalhes dos seus entrevistados, Por sua vez Machado de Assis, Dickens, Garcia Marques, Ernest Hemingway, passaram a ser reconhecidos como escritores de literatura sem se levar em conta que o que define o jornalismo é o relato objetivo (objetividade do fato), portanto o fato real e a literatura trabalha com a ficção.

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