• Ailton Segura

Araguaia: A vida Corre pelo rio


As duas adolescentes chegam, descontraídas e rindo. Encostam de frente no parapeito da ponte e olham o rio revolto e inquieto lá embaixo. As águas não se cansam de manter um fluxo contínuo e eterno. As meninas sorriem maliciosamente, olham para mim e, por um momento, cheguei a pensar que iriam pular. Não. O que eu via era uma celebração de vida. A vida do estreito rio espremendo-se em águas espumosas para conter-se no leito. Elas cochicharam como se estivessem indecisas para tomar uma decisão importante.


Tomaram.


A mais alta delas pegou o óculos escuro que trazia na mão e soltou. O objeto ainda se dividiu entre a água, antes de sumir.


Pronto.


Fiquei a imaginar: que motivo juvenil levou as meninas a se desfazerem do óculos? Um namoro terminado...? Talvez o pagamento de uma promessa? O segredo elas levaram consigo... Caminhando em direção ao município de Alto Araguaia, sumiram da minha vida. O óculos, rodado no rio, poderia ter vários destinos, inclusive o de ficar ali na primeira curva e ser achado por um pescador quando terminar a piracema.


Aquelas águas revoltas formavam um rio estreito e forte. Batem firme nas pedras de um lajeado. Mudam e retornam o rumo levantando bolhas de água. O piso esverdeado pelo qual correm as águas límpidas resistiu ao tempo e hoje é apenas um esboço do que irá acontecer a pouco mais de um quilômetro dali. Quando a revolta das águas assume sua plenitude em duas cachoeiras.


O pequeno rio que se espreme nos 23 metros da ponte que liga Mato Grosso a Goiás está apenas ganhando fôlego e rapidez para se transformar no grande Rio Araguaia com 2.115 quilômetros de extensão. Rio que alavanca a vida de uma população rica em histórias, distribuída em uma área de 382 mil quilômetros quadrados, em cinco estados. Enquanto isso ganha corpo para encontrar-se em pé de igualdade com o rio Amazonas e aliar-se a ele no fenômeno da Pororoca .

Mas ali sob a ponte que une Mato Grosso a Goiás ele é apenas um riacho grande. Assim vai ser nos próximos dez quilômetros. Após receber o Rio Boiadeiro na sua margem esquerda ganha mais força para cumprir seu destino e descer quase 800 quilômetros rio abaixo. Pela frente a menos de 500 metros do rio Boiadeiro a força das águas encontra um despenhadeiro onde despenca uma imensidão de água: é a primeira queda.


Pôr do sol no Rio Araguaia, no estado do Tocantins. (reprodução)


São mais de 50 metros, a altura de um prédio de 10 andares, que formam um espetáculo único com a névoa dos respingos da água batendo contra a rocha o tempo todo garantindo o verde da vegetação o ano todo e, muita força. Força suficiente para gerar 1 megawatt de energia que dá luz e vida à cidade de Alto Araguaia.


Logo depois a trinta e cinco quilômetros o rio salta o último grande obstáculo para se tornar um dos maiores rios do Mundo, a cachoeira de Couto Magalhães, fonte de beleza, energia e de um eterno debate envolvendo grupos ambientalistas que inibem a construção da usina hidrelétrica programada para ser construída por ali. Depois segue seu rumo pelos cânions escavados ao longo de séculos e testemunhando a formação de riquezas como os diamantes que saíram de suas margens no passado, motivando a Guerra da arnica, ou a romântica guerrilha da Serra do Caparão. Mais recentemente banhou o progresso do ciclo de desenvolvimento dos Estados de Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Pará e Maranhão.


Alheio a tudo o que o rio pode representar, sobre a pequena ponte que liga Santa Rita do Araguaia (Goiás) e Alto Araguaia (MT) a vida se resume à ação “inconsequente” das adolescentes que mergulharam, simbolicamente, todas as suas preocupações nas águas rasas e fortes. Mais acima, a quinhentos metros um grupo de cerca de 40 pessoas se reúne com os professores Isaac Newton, Maristela e Dannielle, para dar início ao curso de jornalismo da Unemat (Universidade do Estado de Mato Grosso), inaugurado dia 13 de fevereiro com uma palestra do jornalista Jonas da Silva, na época presidente do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso que com suas palavras irrigou a mente daquelas pessoas reafirmando a importância do novo curso sob a ótica da legislação e dos procedimentos a serem adotados pelos profissionais. No dia seguinte eu iria abordar aspectos da responsabilidade social e do jornalismo como profissão, numa aula inaugural.


Entre cânions, histórias e praias, rio Araguaia atravessa por 2.115 km Banhando estados como Mato grosso, Goiás e Tocantins(Reprodução)


Dentro de quatro anos aquela primeira turma, drenada ao longo das influências do Araguaia, estará registrando nas histórias da região o fluxo de caminhões que sobre a ponte carreiam riquezas de um Brasil Central que desequilibram a balança comercial em favor do Brasil. Irão registrar o presente e transformar-se numa espécie de “arqueólogos sociais” revelando histórias que a cidade aos poucos se esqueceu .


Histórias como a do presidente Juscelino Kubitschek que na década de 50, ainda influenciado pela Expedição Roncador-Xingu, da era Getúlio Vargas, fez do Centro-Oeste a sua principal preocupação, transbordando os trabalhos do Planalto Central, onde construía Brasília, para aquele lado do Brasil, até então pouco lembrado. Histórias românticas das reações extremas contra a ditadura militar. Histórias ainda mal contadas que envolvem guerrilheiros e toda uma população que ficou excluída dos milagres que se fabricavam no Sul. E a própria história do milagre do desenvolvimento com a chegada dos trilhos de ferro cortando o Cerrado para resolver o problema do escoamento da superprodução do Centro-Oeste.

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