• Ailton Segura

A identidade humana sucumbiu




Parte 1 - O CONTEXTO

Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616) construiu sua realidade num período de mudanças. Em sua época o mundo deixava de ser quadrado ou plano e se estendia para além do ‘mar tenebroso”. O medo daquela fronteira havia sido derrotado pela intervenção dos navegadores repercutindo no imaginário europeu. Quando do seu nascimento só havia se passado 60 anos que Bartolomeu Dias, havia contornado o Cabo das Tormentas, menos de 50 anos que Vasco da Gama havia chegado às Índias pelo sul da África e Cristóvão Colombo pisara na América.

Por outro lado não haviam se passado 10 anos de sua morte quando Blaise Pascal iria nascer para desfilar suas inquietações em razões que a própria razão desconhecia, fazendo par com René Descartes que viria nascer 50 anos depois para estabelecer as dúvidas que semearam o método do pensamento moderno.


Arrisco a dizer que vivia em um mundo e pensava em outro. Já era um pouco a síntese confusa do rompimento dos medos marítimos e do esboço da idade moderna. Em seu delírio de 1902, quando começou a escrever Don Quixote, enfrentavam-se o período das trevas medievais com a aurora da modernidade. As dúvidas de Pascal que desenvolveu a matemática para constatar a existência ou não de Deus na sua teoria das probalidades viriam em seguida. O método organizativo viria depois.


Cervantes viveu um momento de epigênese em que o passado convergia para o futuro para a formulação de um novo ciclo. Uma momento que gera a força motriz para a sedimentação de identidades e, ao revelar D. Quixote para o mundo nada mais fez do que substituir o roteiro daquilo que existia entre a perenidade de Eros (simbólico deus do amor, da fecundação e da vida) e Tanatos (deus da inexistência, da morte).


Um novo roteiro implica na busca de uma nova identidade cultural na recriação de um novo imaginário. A renascença trouxe a sociedade européia as informações que agreram um novo modo de ser. E Cervantes, mostra em D. Quixote que assimilou tais mudanças. Ao traçar uma caricatura dos valores feudais revelou a insanidade da multifacetação da identidade de sua época.


A influência do mundo oriental e os novos valores assimilados provocou uma crise de identidade que afetou até mesmo o poderio do Papa. Lutero, primeiro, e Calvino depois, também tiveram seus moinhos de ventos e suas Dulcinéias.


Quando D. Quixote veio ao mundo, portanto, buscava-se uma identidade nos moldes do que nos define Stuart Hall, como “construções discursivas legitimadas a partir do momento em que os contextos culturais assim o permitem”. E, D. Quixote tornou-se o fruto do discurso do atraso. Alheio às mudanças de contexto. Transformou sua vida sem sentido, no mundo em que vivia, para dar sentido à falta do sentido da vida. Alienado na cultura formal que o impelia às glorias e sonhos de uma elite cristã defensora de um status quo que habitava apenas os romances de cavalaria que mantinham ao seu alcance e deleite.


Cervantes não.


Sintonizado com sua realidade epigenética. Vingou-se da sua época no primeiro alerta na aurora dos tempos que mais tarde seriam modernos.Bebeu em longos goles a realidade que vivia e pariu o personagem mítico como a alertar que os tempos mudaram e que persistir na realidade quixotesca levaria a uma interpretação de insanidade. Mais do que tudo se fazia necessário cessar tudo o que antiga musa cantava para abrir espaço ao novo mundo que já habitava as mentes humanas. A propósito, não é a toa que Erasmo de Roterdam faz, mais ou menos neste período o seu Elogio à Loucura.. E que a igreja católica realiza o concílio de Trento (1545-1563).

Parte 2 – A REALIDADE

D. Quixote, revela mais do que um personagem aturdido pelas informações que recebeu e que o levaram à realidade que viveu na obra de Cervantes. O cavaleiro herói excluído do tempo das lidas, relatadas nas novelas de cavalaria, adequou o contexto ao seu imaginário, traduzindo-o em imagem e semelhança. E, literal e literariamente foi à luta.

Nos moldes da nossa época, caso não estejamos sendo quixotesco, vemos levas e mais levas de Quixotes atuarem em contextos descontextualizados, conduzidos também pelas leituras, pela influência daquilo que vêem e lêem pelos meios de comunicação. Já é um fenômeno de massa globalizada, não mais individualizado na elite de La Mancha.

Do renascimento, galopou pela modernidade inteira até o século XX para descobrir que tudo é relativo. Até mesmo a ação de infiéis muçulmanos que derrubaram as torres gêmeas da apoteose da burguesia. Com facas entre os dentes, cavalgando modernos Boings, incitando o mundo a uma nova cruzada sangrenta que respinga em forma de petróleo nos nossos dias.

Quem nos avisou foram os meios de comunicação, que nos deram a oportunidade de ver, ao vivo e, à cores, um frame de barbárie, à qual, de certa forma, já estamos acostumados. Até achamos normal quando os telejornais nos apresentam os mortos e mais mortos da estatística que, diariamente, revelam a derrota do ser humano.

A identidade humana sucumbiu.

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