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Os jovens se transforma em servos numa neo idade média

 
 
 
Umair Haque* -Tradução: Marianna Braghini
 
Há algo terrível e bizarro que notei – e talvez você tenha notado também. Ninguém que eu conheça abaixo dos 40 anos consegue mais. Isso também se aplica as pessoas acima dos 40 também, é claro – mas como veremos, o destino de uma economia depende, em muitos aspectos, dos jovens.
 
Refiro-me, com “não consegue mais” a todos os significados possíveis materiais. Os mais jovens não conseguem fazer face às despesas. Não conseguem salários decentes. Por isso, não conseguem poupar — nem, em consequência, comprar casas, iniciar famílias, mais tarde mudar-se. Como estão presos, vivendo nas casas de seus pais, tornam-se deprimidos, frustrados e furiosos. Vamos pensar sobre o significado de tudo isso.
 
Por estarem deprimidos, frustrados e furiosos, creio, eles voltam-se àquilo que conseguem pagar – mídias sociais, Netflix, “autocuidado” e outras atividades semelhantes. Mas elas não aliviam (ao contrário, podem agravar) o trauma emocional – sim, é um trauma – de estar preso em impotência e desesperança. Um ciclo vicioso emergiu: desempoderamento econômico, traumas psíquicos, isolamento social… potenciais desperdiçados. Fracasso psicoeconômicosocial, uma situação tão asquerosa que mal temos palavras para ela. Mas vou chegar a isso, em detalhes bastantes sórdidos, em breve.
 
O capitalismo encurralou os jovens em uma espécie de eterna adolescência – durante a qual, são perseguidos como presas. Nunca os deixa crescer – embora diga-lhes, frequentemente para “assumirem responsabilidade”, “serem adultos” e “virarem-se com seus próprios meios.” Como um monstro, enclausura-os, isola-os e os pinça, um a um, quando estão em seu momento mais frágil – por sua doce carne. Puf! As fábulas distópicas desta era não estão muito longe da realidade. Os mais jovens são mantidos neste estado de adolescência perpétua para que possam ser explorados com máxima e perfeita eficiência – até que não tenham mais nada e então sejam descartados.
 
Estarei exagerando? Basta olhar a realidade socioeconômica. Depressão e suicídio crescem entre os mais jovens. Eles não conseguem sair da casa dos pais. Têm menos relacionamentos. Até fazem menos sexo – quando que você ouviu de jovens fazendo menos sexo? Isso não é motivo de alarme? Estão falidos – e jamais irão se aposentar – mas também sequer conseguem um emprego. Uma vida boa como a do pai? Da avó? Sonhos distantes.
 
Não é surpresa, portanto, que os jovens também tenham desistido do capitalismo. Não são apenas contra. Zombam, como uma criança diria: “eu não tenho medo daquele monstro!” Têm desprezo e desdém. Deveriam. Os jovens estão desistindo do capitalismo porque o capitalismo falhou com eles.
 
Por baixo deste grotesco véu de inevitabilidade distópica, repousa uma verdade mais profunda. Os mais jovens estão na intersecção de três grandes choques econômicos – algo que nenhuma geração, verdadeiramente, teve que se encarar antes. Primeiro, a informatização tirou os últimos bons trabalhos restantes da economia e os concentrou em um pequeno grupo de companhias de tecnologia. Segundo, a financeirização fez tudo se transformar num pilha de dívidas, para que a inacessibilidade das coisas se mantenha invisível. Terceiro, décadas de desinvestimento na sociedade fizeram, do mais básico para se viver, algo ridiculamente inacessível. Quando você paga R$ 1,5 mil por mês, por pessoa, pela assistência à saúde…a ideia de ter filhos, começar uma família, comprar uma casa, torna-se piada amarga e grotesca.
 
O que fazem os jovens? Se têm famílias ricas, recorrem sem parar a elas, pelo apoio de que desesperadamente precisam. Para o aluguel, o convênio de saúde, a prestação do carro. Não há nenhuma vergonha nisso, mas como nos nos sentimos envergonhados, não debatemos a questão central: os jovens estão atualmente atrelados a suportes de vida, meus amigos – até mesmo os responsáveis e produtivos.
 
Aqueles que não têm famílias ricas estão em uma posição bem pior. O que irão fazer? Muitos recorreram às drogas. Claro, jovens sempre usam drogas. Mas há uma grande diferença entre fumar um baseado de vez em quando e uma dependência desamparada em opioides, por estar emperrado em uma vida sem saídas, em alguma cidade que um dia já foi lar de grandes industrias agora falidas. Os jovens estão, em essência, medicalizando livremente a dor do capitalismo
 
Aqueles que são corajosos o suficiente para não medicalizar a dor, são crescentemente forçados a se voltar a vidas precárias para conseguir se sustentar o mês todo. A ascensão das camgirls [garotas que ganham dinheiro em troca de se exibir em câmeras online] e serviços online para ser “acompanhantes”, afim de pagar os estudos de graduação e outros, são um exemplo. Não há nada de errado em trabalhar com sexo quando você escolhe isso – mas minha sensação é que muitas mulheres não estão fazendo a opção, mas sendo compelidas por conta das dificuldades financeiras. É um fenômeno comum, também, de sociedades em colapso – suas mulheres têm que oferecer seus corpos para apoiar seus homens e a si mesmas. Nós, norte-americanos, damos risada da indústria do sexo no leste europeu, das crianças prostitutas tailandesas, das esposas por encomenda, mas não conectamos os pontos – é isso que o capitalismo está atualmente fazendo também com as mulheres próximas de nós. Mas também é algo que não discutimos, porque estamos ocupados demais glamourizando trabalho sexual para pensarmos: é apenas uma coincidência que o sexo esteja se transformando em commodity e aproveitado para lucro nas formas mais extremas, precisamente no momento que nossa sociedade está em colapso?
 
E os homens que não têm famílias ricas e não podem se vender como as mulheres? Eles voltam-se aos bicos digitais – dirigindo para o Uber e oferecendo serviços no TaskRabbit [aplicativo voltado para oferta, precária de serviços básicos, em geral domésticos] e outros. Ainda que estes bicos ajudem a “diminuir” a taxa de desemprego, no melhor dos casos são apenas uma ilusão – porque você não pode fazer isso pra sempre. Não se trata apenas de não ser uma carreira – é o oposto de uma: atividades que não incluem nenhum investimento em capital humano, emocional ou social. São essencialmente uma outra maneira de vender seu corpo – porque você não pode desenvolver sua mente ou alma. Não é dizer que pessoas não paguem seus estudos ao trabalhar com Uber, nas câmeras online e outros. A questão é: eles deveriam ter que fazer isso? O que custa a todos nós quando estas são as opções oferecidas?
 
O que é uma camgirl? Algo como uma concubina, um acessório de prazer. O que é um motorista de Uber? Algo como um chofer. O capitalismo está recriando algo muito parecido com a sociedade feudal, e fazendo da atual juventude uma legião de serventes, de servos. E o que é um servo, se não alguém compelido a vender seu trabalho braçal da forma mais servil que puder – em vez de autorizado a desenvolver sua mente, criatividade, intelecto, aspirações, imaginações?
 
O capitalismo tornou-se predador dos jovens. Mantém-nos presos em uma adolescência perpétua – nunca permitido-lhes amadurecer, ter casas, começar famílias e se tornar adultos autônomos. Os jovens são mantidos nesta condição porque há poucas coisas mais lucrativas do que manter uma classe de novos, sorridentes servos e serventes para agenciar. Além de tudo, estão à distância de um toque na tela do celular.
 
É uma obviedade que “capitalismo é exploração.” Mas o que isso significa exatamente, no contexto do colapso da civilização do século XXI? O capitalismo tornou-se o cafetão e o videirinho da juventude, sua madame e seu carcereiro, o dono da loja que utiliza mão de obra semi escrava. É o algorítimo que leiloa seus corpos, suor e músculos ao menor lance, com o maior custo. Não é a mão gentil que cuida deles até a idade adulta. A juventude não está se voltando cada vez mais a formas desesperadas de trabalho e consolo — enquanto a sociedade colapsa ao redor –, só para conseguir sobreviver?
 
O sistema não está criando os inventores de amanhã, revolucionários, artistas e intelectuais. Alguns podem emergir, mas em geral estão se tornando servos. Estagiários de 40 anos, viciados em opioides, esgotados pela internet, pessoas que nunca tiveram um trabalho decente em suas vidas, jovens próximos da meia idade que ainda vivem com os pais porque não têm para onde ir. Pessoas que podem apenas estar crescendo acostumadas e resignadas a ser impiedosamente exploradas pelos mais velhos, ricos, predadores, até mesmo quando mesmo se enfurecem em suas telas, contra a máquina que os ataca.
 
São os servos algorítmicos, serventes e prisioneiros do desejo – uma casta de trabalhadores sempre a disposiçã, e sob demanda, para servir. Mas pode uma sociedade de castas e de servos algorítmicos, que fazem trabalho braçal, vendendo sua juventude de maneiras cada vez mais desesperadas, também ser uma democracia moderna? Um lugar de abundancia, paz, crescimento e maturidade? Ou será um lugar perpetuamente instável, também devido a este ciclo de adolescência perpétua?
 
Algo muito grave e vital é perdido quando agenciamos nossos próprios jovens ao capitalismo, quando este se torna chefe dos estabelecimentos de mão de obra semi escrava. Eles podem desistir da democracia e da liberdade. Chegam ao sofá esgotados, deprimidos e semi-suicida, em vez de protestar e votar. Tornaram-se traumatizados e feridos. Talvez passem a apreciar o mecanismo de sua própria opressão – “Ei, o Facebook é bom para mim! Não tire o Uber de mim!” Dificilmente será possível culpá-los. A que mais podem recorrer, além da opressão, para subsistir?
 
Agora, a armadilha aparece. O capitalismo diz aos mais jovens: “venda-me seu corpo enquanto ainda está fresco, se quiser viver. Te dou alguns trocados”. E ainda assim, os jovens mostram sinais de vida. Estão se rebelando contra o capitalismo, porque o sistema falhou com eles, de todas estas maneiras escabrosas e terríveis. Isso deveria dar um pouco de esperança. Os jovens sempre foram os mais sábios entre nós. E em seu veemente desprezo ao capitalismo – mesmo que ainda não entendam a profundidade em que o sistema os rebaixou e os desgraçou – eles são melhores e mais verdadeiros do que sabem.
 
UMAIR HAQUE - Diretor do Havas Media Labs e autor de "Betterness: Economics for Humans" e "The New Capitalist Manifesto: Building a Disruptively Better Business". Ele é considerado um dos mais influentes pensadores sobre gestão, pela Thinkers50.