Fotografo: Sem Dados
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Sem Legenda

 
 
Tardará um pouco para que a velha mídia brasileira se dê conta – mas um movimento geopolítico maior está se desenrolando, diante de nossos olhos, nestes dias. Tem como fulcro a América do Sul. Implica o Brasil.
 
Há alguns dias, os Estados Unidos articularam-se para dar o empurrão final que defenestraria, na Venezuela, o governo de Nicolas Maduro – e liquidaria o chavismo, que, com todas as suas insuficiências e contradições, inaugurou a primeira tentativa conjunta de livrar a América do Sul da submissão colonial. O script foi montado nos mínimos detalhes, como anteciparam, dias antes dos fatos cruciais, The Economist, o Wall Street Journal e até anúncios publicitários gigantes, nos painéis de Nova York…
 
Na quarta-feira (23/1), a Assembleia Nacional empossaria o jovem deputado Juan Guaidó como “presidente”. Uma vasta marcha nas ruas tiraria proveito da impopularidade do governo e emprestaria legitimidade ao ato. Os Estados Unidos inaugurariam, de imediato, uma onda de “reconhecimento internacional” a Guaidó. Ela seria claramente majoritáia, na nova configuração política da região. Mas – componente indispensável – jogou-se no tabuleiro a carta militar. Washington anunciaria que “ todas as opções estão sobre a mesa” para afastar Maduro do poder.
 
O script foi seguido à risca, ao longo de toda a quarta-feira, até ser interrompido esta manhã (24/1), por um ator que entrou em cena sem convite. Nas primeiras horas do dia, o vice-ministro do Exterior da Rússia, Sergei Ryabkov fez uma declaração enfática, que ele próprio qualificou de alerta [“we warn you against that”] e cujas palavras quase feriam o linguajar diplomático: qualquer tentativa de interevenção de Washingnton teria consequências “catastróficas”. Horas depois, o contrapeso à pressão dos EUA seria reforçado pela China e por um telefonema de Vladimir Putin a Nicolas Maduro.
 
Nem nos tempos da União Soviética o poder dos EUA sobre a América Latina foi tão abertamente desafiado. No Brasil, o golpe de 1964 recebeu respaldo decisivo de porta-aviões norte-americanos, estacionados junto à costa brasileira. Executavam a Operação Brother Sam. Os tempos são outros, a geopolítica também. Como mostra José Luís Fiori, a operação de dissuasão que Rússia e China executaram agora tem precedentes. Em dezembro de 2018, dois bombardeiros russos, com capacidade nuclear, participaram – também pela primeira vez, na história da região – de um exercício conjunto com as Forças Armadas da Venezuela. Os EUA protestaram, mas nada puderam fazer. É provável que os termos “alerta” e “catastróficas” estejam relacionados a isso…
 
E no entanto, agora, até mesmo o apoio da Rússia e da China pode ser insuficiente para salvar o governo Maduro e o chavismo, às voltas com suas enormes contradições.
 
As ruas de Caracas e da Venezuela já não estão com o governo, como mostra, ainda que com eufemismos, a cobertura da própria Telesur sobre a jornada de ontem. Das duas manifestações que tomaram a capital, a da oposição era, claramente, maior. Talvez pela primeira vez, não era composta apenas pela elite branca. Por que o chavismo, que se caracterizou por enorme apoio popular; que venceu nove das dez primeiras eleições nacionais de que participou; que instituiu mecanismos inovadores de reforma política, como os “referendos revogatórios”, encontra-se agora nas cordas?
 
Três textos publicados hoje por Outras Palavras, num “Dossiê Venezuela” ajudam a compreender o que se passou. O primeiro, uma análise de longo prazo, é de autoria de Edgardo Lander, um intelectual que se aliou ao chavismo em sua primeira hora mas se tornou, há mais de uma década, dissidente à esquerda.
 
O texto de Lander é fundamental porque aborda algo que transcende a Venezuela. Fala da insuficiência da “onda rosa”, da maré de governos semi-reformistas que desafiou pela primeira vez, na América do Sul, o domínio colonial de 500 anos. Todos tiveram apoio popular notável e alcançaram êxitos inéditos, num primeiro momento – em especial, no combate à pobreza extrema e em certa redução das desigualdades. Há muitas nuances [e a Bolívia talvez seja um caso à parte], mas nenhum foi capaz de desafiar as estruturas essenciais que mantêm o poder das elites.
 
Na Venezuela, mostra Lander, o desafio consistia em livrá-la da dependência secular do petróleo. Detentor das maiores reservas do planeta (e por isso, alvo de tanta cobiça), o país jamais desenvolveu uma estrutura produtiva autônoma. Preferiu repousar sobre o dinheiro fácil que o mercado mundial lhe oferecia pelo presente que ganhou da natureza. O chavismo distribuiu a riqueza petroleira – seus “programas sociais” superam muito, em alcance, profundidade e resultados, os do Brasil de Lula. Mas nunca deixou de se pendurar no petróleo. Há razões profundas, mostra Lander. A riqueza petroleira é concentrada, facilmente controlável – tanto pela direita quanto pela esquerda. Permite constituir uma elite hierarquizada e obediente – ainda que muitas vezes corrupta. Ir além e estimular uma economia múltipla (algo que a Venezuela nunca teve) era mais difícil e arriscado.
 
Tudo parecia bem até 2014, quando, em consequência de uma conjuntura internacional peculiar, o barril de petróleo chegou a valer 100 dólares. Apenas um ano e meio depois, cairia a US$ 30. Como sobreviveria uma economia cujas exportações dependem em 95% deste único produto? Como lidar, além disso, com sanções decretadas por Washington, que comprometeram, a partir de 2017, boa parte da capacidade de investimento da PDVSA, a empresa nacional de petróleo?
 
O segundo texto, de Temir Porras Ponceleón, um ex-assessor de Chávez e Maduro (até 2013), aponta os ziguezagues sem rumo do presidente, diante da ameaça. Num primeiro momento, ele negou-se a enxergar a realidade. A Venezuela não imprime dólares e outras moedas fortes. Porém, estas são necessárias para comprar, no exterior, o que não produz – medicamentos, comida, bens industriais básicos e sofisticados. A queda da capacidade de adquirir divisas obrigava a restringir seu uso, tornando-as mais caras. Até 2018, isso nunca foi feito – talvez devido ao temor, do governo, de admitir as fragilidades do modelo que seguia. A cotação do dólar (no mercado oficial) foi mantida fixa. Num caso de suprema demagogia (e rendição à ditadura do automóvel), o litro da gasolina chegou a custar, em Caracas, o equivalente a R$ 0,04. Era possível encher um tanque com o que se paga por uma garrafinha de água.
 
Sem base produtiva alguma e sem moeda forte para satisfazer às necessidades de consumo, um país com esta política só poderia mergulhar em escassez, inflação descontrolada, mercado paralelo, corrupção endêmica. As fotos que mostram prateleiras vazias nos supermercados são reais – e decorrem de erros políticos gravíssimos. O governo preferia, porém, atribuir os fatos à sabotagem dos grandes empresários.
 
Em 2018, veio uma primeira correção de rumos – ainda muito insuficiente. Nosso terceiro texto, do cientista político norte-americano Mark Weisbrot, sugere um caminho a seguir. O primeiro passo, diz ele, seria adequar o preço do dólar à realidade e eliminar os subsídios ligados ao consumo perdulário. Haverá forte queda do poder aquisitivo dos mais pobres. Mas isso pode ser enfrentado com uma regra que corrija automaticamente o valor real dos salários (ausente hoje) e – em especial – por um sistema tributário que promova distribuição de renda sem dependência direta do governo. Sim, acredite: além de não ter feito uma Reforma Tributária, a Venezuela convive com um sistema de arrecadação arcaico e sujeito a todo tipo de fraudes.
 
 
É possível que, por seu caráter explícito, o esforço de Washington para derrubar Maduro e entronizar Guaidó revele-se um tiro no pé. Não seria o primeiro grande fracasso da política externa dos EUA nos últimos anos… Mas, sem uma mudança de rumos corajosa e real, o governo chavista ficará inteiramente nas mãos dos militares.
 
Isso está explícito num fato desta tarde. O ministro da Defesa de Maduro, Vladimir Padrino, apareceu em rede nacional de TV para confirmar o apoio das Forças Armadas ao presidente constitucional. Acusou a oposição – e em especial Guaidó, os EUA e “seus aliados regionais, como o Brasil” — de tentar planejar um golpe. Advertiu que este esforço produziria “caos e anarquia” e que o caminho para enfrentar os problemas do país “é o diálogo, não a guerra civil”. Estava ladeado por toda a cúpula militar.
 
Talvez sejam precisos vários anos para compreender a dimensão exata dos acontecimentos das últimas horas. A interrupção de um golpe de Estado, no quintal dos EUA, após ação explícita de dois países que nunca tiveram antes ação relevante na região, é uma enorme novidade. We warn you… O fato de Washington não dar as cartas como antes merece ser celebrado.
 
Mas ainda mais importante é enxergar que o projeto iniciado na América do Sul na virada do século está esgotado. Nem potências estrangeiras, nem os militares, poderão salvá-lo. Maduro ganhou algum tempo. Sem mudanças reais, sucumbirá como Lula, Cristina, Lugo, Rafael Correa, Zelaya.
 
As saudades e a melancolia não trarão de volta os bons tempos. Por onde iniciar o novo passo necessário? Como disse Bertort Brecht, em tempos igualmente difíceis, “não espere outras respostas, senão as suas”.
 
Para saber mais
 
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