Fotografo: Ailton Segura
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Casa onde morou hoje é museu da pré-história

 
 
Quando Mato Grosso precisou de um conciliador, as principais lideranças do Estado não tiveram dúvidas: recorreram a um jovem de 32 anos que há três havia sido investido no cargo de bispo, tornando-se o mais jovem bispo do mundo, D. Francisco de Aquino Correia. O cenário político há muito havia se degradado e as principais questões haviam saído das tribunas para o campo de batalha numa sangrenta insurreição que ficou conhecida como “a Caetanada”. 
 
Com firmeza o novo governador enfrentou dois lados em estado de guerra, cada um com as lideranças de peso e influência. Entre outros combates ele se viu num cenário de assassinatos, sonegação maciça de impostos, e o poderio político e econômico da maior potência econômica da América do Sul, a Companhia Mate Laranjeira. A conspiração da empresa vinha inclusive com ameaças de divisão do estado e da anexação de parte de Mato Grosso aos países de língua espanhola (Argentina e Paraguai principalmente).
 
Apadrinhada desde o século XIX pelos Murtinho, Joaquim (que era médico do Imperador Pedro II e depois ministro da Fazenda da República e senador até sua morte), seus irmão Manuel José (presidente de Mato Grosso no Império e depois ministro do Supremo Tribunal Federal) e José Antônio Murtinho (também senador), a Mate Larangeira pleiteava, além do monopólio da extração de erva-mate em 5 milhões de hectares, a aquisição de mais 2 milhões de hectares, pela metade do preço. 
As pretensões do monopólio do Mate foram barradas, primeiro por Pedro Celestino (como governador do Estado) e depois pela Assembleia Legislativa que após um longo período de obstrução votou a lei Número 725, de 24 de agosto de 1915 que frustrava definitivamente os interesses da Mate Laranjeira. 
 
A “Caetanada” veio como reação à postura de Caetano Manuel de Faria e Albuquerque, que assumiu o governo de 1915 a 1917, e que mesmo sofrendo um processo de impeachment não deixou o governo, apoiado por Pedro Celestino. Saiu a campo para enfrentar e defender um governo que já não tinha,  numa rebelião armada, instrumentalizada pela Mate Laranjeira e seus aliados políticos, o principal deles o senador Azeredo, então vice-presidente do Senado que interferiu para que o presidente da República, Wenceslau Brás decretasse a intervenção no Estado.
 
Depois de dois governos interinos com menos de um ano de duração (Camilo Soares de Moura - de fevereiro a agosto de 1917 e Cipriano da Costa Ferreira que ficou no  governo até janeiro de 1918) e centenas de mortes de ambos os lados, as forças antagônicas de Celestino (do partido Republicano Mato-grossense) e do Senador Azeredo (Partido Republicano Conservador) sentaram com o presidente Wenceslau Brás para um armistício e aceitaram a candidatura conciliatória do bispo D. Aquino Correia, de Cuiabá, para assumir o governo mato-grossense. 
 
A presença de D. Aquino no governo (de 1918 a 1922) não apenas apaziguou os espíritos como lançou as bases para um novo Mato Grosso, pondo fim ao coronelismo da época, acostumado a resolver suas pendências dos modos mais violentos. A partir da sua posse o Estado ingressou num outro ciclo o da modernização, com a imposição de um intelecto privilegiado no comando das coisas locais. D. Aquino que havia saído de Cuiabá em 1904 para estudar na Europa retornou à sua terra natal doutor em filosofia e teologia, aos 24 anos, carregando na bagagem uma visão de mundo diferenciada, de quem havia passado os últimos seis anos de sua vida em Roma, estudando em duas instituições de ponta: a Academia de Santo Tomás de Aquino e a Universidade Gregoriana.
 
O menino que após ficar órfão com 3 anos de idade, em 1888, que estudou no Colégio Salesiano e com uma vida sacerdotal iniciada no Coxipó da Ponte, em 1902, aprovado com brilhantismo por uma banca examinadora do Liceu Cuiabano para revalidar os estudos do Colégio São Gonçalo, agora tinha outras preocupações. Havia se tornado o mais jovem bispo do mundo em janeiro de 1915.
 
Sua preocupação foi além da identidade do Estado, com a criação do Brasão de Armas de Mato Grosso e o Hino do Estado. Comemorou o bi-centenário de Cuiabá com a implantação do Instituto Histórico de Mato Grosso que presidiu até 1956, fundou a Academia Mato-grossense de Letras (o Centro Mato-Grossense de Letras em1921) e criou os símbolos destas instituições. 
 
Mesmo dirigindo o Estado continuou escrevendo e pela qualidade dos seus textos tornou-se imortal na Academia Brasileira de Letras, em 1926 (Cadeira n. 34, na vaga deixada por Lauro Müller, que sucedeu o Barão do Rio Branco e que hoje é ocupada por João Ubaldo Ribeiro).
 
Dom Aquino também foi o responsável pelo serviço de iluminação elétrica de Cuiabá e pela pavimentação das ruas de sua época (com macadame, um composto de pedra canga, breu e cristais de quartzo), que possibilitou a implantação do transporte coletivo do Centro até o Porto. 
 
Ao deixar o governo foi elevado ao posto de Arcebispo de Cuiabá, pelo Papa Bento XV, com apenas 37 anos de idade. Representou o Brasil na VII Conferência Internacional de Instrução Pública, em Genebra (1938) e ocupou o cargo de Embaixador Plenipotenciário e Extraordinário do Brasil, junto à República do Uruguai, no ano de 1951.
 
Sua produção literária abrangeu a literatura em prosa e verso que era publicada nos jornais do Estado e livros e editada em oito volumes, divididos em Poética, Pastorais e Discursos, numa homenagem do Senado Federal, que também publicou três volumes reunindo suas Cartas Pastorais, em 1985 .
 
Suas principais obras são:
Odes, poesia, 2 vols. (1917)
Terra natal, poesia (1920)
A flor d'aleluia, poesia (1926)
Discursos, oratória (1927)
O Brasil novo, discurso (1932)
Castro Alves e os moços, discurso (1933)
Oração aos soldados, discurso (1937)
O Padre Antônio Vieira, discurso (desconhecida)
Nova et vetera, poesia (1947)
No final de sua vida comandou o Congresso Eucarístico realizado em Cuiabá, onde lançou sua última carta pastoral “Maria ou Morte!, às vésperas de sua morte em 1956