Fotografo: FGV
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Os generais à paisana com empresários. Na foto Golbery e Geisel

Não encontro mais o livro, nem sei mais o autor, sei que era latino-americano, Trazia um conto inesquecível, a história de um coronel escolástico, desses que só são reconhecidos pela igreja católica, que para testar seu poder jogou uma moeda para o alto, ergueu a mão e ordenou: “ninguém mexe”.
 
Passaram-se os anos e ninguém mexia. A moeda virou a “moeda do coronel” e era o ponto de referência na cidadezinha. Encontros eram marcados em frente  à “moeda do coronel” e ela lá cristalizada pela “autoridade” do coronel. 
Um dia, o coronel passeando pela cidade com o netinho, viu ele colher a moeda do chão e correr para mostrar para o avô. No dia seguinte o comentário na cidade era que o neto do coronel havia achado uma moeda na praça.
 
O conto, uma crítica às sociedades que esquecem seu passado a exemplo de Macondo, de Garcia Marques, lembra  as posturas  do general Golbery do Couto e Silva, principal ideólogo da ditadura de 64. Golbery era da turma que trouxe de West Point o legado e a intenção de transformar o Brasil num país capitalista, submetido aos interesses dos Estados Unidos.
 
Foi sem dúvida um intelectual a serviço da causa e após aposentar criou o IPES que passou a dirigir em 1961. Ele tinha a incumbência de levantar dados da sociedade para combater o que eles jugavam ser o avanço comunista no Brasil que nada mais era do que um governo popular voltado aos mais pobres, praticado por João Goulart, herdeiro político de Getúlio Vargas.
 
Antecedendo a ditadura militar surgiu então o IPES, financiado pelo Departamento do Estado dos EUA (CIA) e capitaneado por grandes empresários de multinacionais (Ligth por exemplo, Listas Telefônicas e Refinaria União e uma infinidade de empresas de porte menor e ongs católicas).
 
Golbery se destacou como o grande líder. Era professor da Escola Superior de Guerra e o principal mentor da ditadura militar ao lado de Lincoln Gordon, embaixador norte-americano no país. Mas, se tinha coisa que não era, era imbecil. Primeiro que em suas falas discursava prometendo a democracia para o Brasil e nunca usando discurso anticomunismo. E, nas palestras de ideologia de segurança nacional e geopolítica, não poupava referências ao comunista Vladimir Ilyich Ulianov, o Lenin. Havia estudado a revolução Russa (liberal) e encampou, do socialismo científico, as falas do momento  pré-revolucionário, quando “a elite se divide, o trabalhador se organiza e  a fome cresce pela ganância dos mais ricos”.
 
O general, discreto, passou a ser referência dos militares e empresários da direita nacionais e mandava e desmandava nos seus pares que governaram o país (Castelo Branco, principalmente). Costa e Silva, militar de extrema direita enfrentou-o e acabou sendo tirado do poder por corrupção de familiares (a mulher Yolanda foi acusada de grilagem de terras na cidade de São Paulo e outro parente teria dado um desfalque na Caixa Econômica Federal).
 
As névoas do desfecho da transição terminou com Costa e Silva fora do governo (até hoje pairam dúvidas da sua saída, uma vez que morreu em seguida) e Gobery com um incidente de descolamento da retina (dizem que por agressão de seus pares) e sua retirada às pressas do país, para uma temporada em Barraquer na Espanha. O mais carniceiro dos generais (Médice) assumiu a presidência da república e ao mesmo tempo que promovia o chamado milagre brasileiro, se endividando com dinheiro do FMI, implantou a mais feroz repressão, com torturas, sequestro e sumiço de pessoas e assassinatos.. A corrupção que cresceu em 1969 só diminui no préoximo governo, quando Ernesto Geisel assumiu o poder.