Fotografo: Vinícius Loures
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Deutados exibem cartazes na audiência pública com a ministra da Agricultura

 
 
 
Em vez de pautar-se por estudos científicos de pesquisadores do mundo todo, a ministra da agricultura, Tereza Cristina, optou pelo obscurantismo ao defender o uso de veneno na lavoura, na Câmara. Afirmando que o estudo do pesquisador Wanderley Pignati, da Saude Coletiva da UFMT é resultado de falta de informação, a ministra do agronegócio atribuiu os problemas ao fato dos lavradores fumarem. Ela também diz que o brasileiro só passa fome porque quer porque no país há manga demais.
Pignati realizou estudos nas cidades de Lucas do Rio Verde, Campo Verde, Sapezal, Campo Novo do Parecis e Campos de Julio, e constatou que enquanto a média nacional de exposição é de 7,3 litros por habitante, em Mato Grosso pode chegar a 67 litros. Ele chamou o modelo de “químico dependente de fertilizante” e apontou que ele “leva ao risco sanitário, alimentar, ambiental. É claro que Mato Grosso é campeão nacional de produção de soja, de milho, de algodão, mas também é campeão nacional de consumo de agrotóxico”, disse o médico que é membro da Associação Brasileira de Saúde Coletiva. 
 
Um dia depois da fala da ministra os deputado aprovaram mais 31 agrotóxicos. Ales somam-se o deferimento de registro de outros 152 registro de 152 agrotóxicos. A chefe da pasta da Agricultura participou de audiência pública conjunta realizada pelas comissões de Meio Ambiente, de Defesa do Consumidor, de Seguridade Social e de Agricultura. O encontro foi requerido pelos deputados federais Camilo Capibere (PSB/AP), Célio Moura (PT/TO), Alexandre Padilha (PT/SP) e outros.
Chamando de “remédio das plantas” o veneno que o homem consome, direta ou indiretamente ela não poupou ataques à ciência, atribuindo aos resultados científicos à desinformação dos cientistas. Ela prefere acreditar que na maioria os casos de intoxicação ocorrem devido ao manejo errado dos pesticidas, argumento usado pela Frente Parlamentar da Agropecuária da qual ela já foi presidente. Foi muito aplaudida pelos membros da Frente, que eram maioria no plenário. Ainda, segundo ela, “os pequenos produtores não tomam cuidado ao aplicar o veneno”, e pasmem, atribuiu ao uso do cigarro a contaminação. “Às vezes o sujeito fuma aplicando, e no cigarro ele acaba ingerindo o produto químico que ele está utilizando na aplicação do solo”. 
Brasileiro não passa fome porque tem manga.
 
Mais tarde, ao tentar explicar que países que já passaram por guerras investem mais nos produtores rurais, a ministra disse que o brasileiro não passa muita fome porque tem manga nas cidades. “A agricultura para países que tiveram guerras e que passaram fome é segurança nacional. Nós nunca tivemos guerra, nós não passamos muita fome porque temos manga nas nossas cidades, temos clima tropical”, pontuou.
Antes de chegar ao mercado, o agrotóxico precisa passar por avaliação do Ministério da Agricultura, Ibama e da Anvisa. Os órgãos fazem diversos testes para medir, por exemplo, o grau toxicológico e o potencial de periculosidade ambiental. O período para o produto passar por todo processo de avaliação pode chegar aos cinco anos — apenas após receber o aval de todos os órgãos que o deferimento do registro é publicado no Diário Oficial da União.
 
No atual governo seis atos já oficializaram o deferimento de 152 registros. As autorizações publicadas neste ato tramitaram no ano passado, ainda durante o governo de Michel Temer (MDB). Porém, sob a batuta da ministra, foram publicados no Diário Oficial o pedido de registro de mais 322 produtos agrotóxicos, que passarão agora por avaliação do Ministério da Agricultura, Ibama e Anvisa.
 
 
Mortes de abelhas
A ministra rebateu reportagem da Agência Pública e Repórter Brasil que mostrou que em três meses mais de meio bilhão de abelhas foram encontradas mortas em quatro estados brasileiros. Estudos laboratoriais encontraram vestígios de agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil nos insetos mortos.
 
Porém, segundo uma pesquisa citada pela ministra, os casos estariam ligados a outro agrotóxico, o ingrediente ativo Sulfoxaflor, que segundo ela não é registrado no Brasil. “Esse é o grande problema dessa fila enorme que não registra e testa produto. Esse produto muito provavelmente entrou de maneira ilegal no Brasil e está sendo usado de maneira errônea”. Segundo ela, o governo deve aprovar mais agrotóxicos para impedir o uso de substâncias ilegais.
 
A ministra foi corrigida pelo deputado Alexandre Padilha (PT), que mostrou que o Ato nº1 do Ministério da Agricultura, publicado em 10 de janeiro deste ano, autorizava o registro do ingrediente ativo. Após consultar assessores, Tereza informou que apenas o ingrediente ativo foi autorizado mas ainda não há produtos sendo vendidos no mercado.
 
Sobre Fipronil e neonicotinoides, a ministra disse que estão passando por reavaliação do Ibama, onde serão apurados seus impactos nos polinizadores, assim como já mostrou a reportagem da Agência Pública e Repórter Brasil.