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A ideía é criar um elemento secundário que vai desviar atenção.

 

Quando observamos um mágico vemos como ele exerce o domínio sobre coisas da natureza, tirando pombas do bolso do paletó, cartas de baralho do nariz de voluntários e até mesmo fazendo sumir objetos no espaço. Usando de sua habilidade ele recorre a truques e artifícios para desviar nossa atenção enquanto habilmente esconde seus atos intermediários.

A ilusão é a magia.Um artifício semelhante foi usado no filme o O homem que copiava  como uma sublime crítica à Imprensa. Ao estabelecer o roteiro de um crime, o personagem André elenca entre as necessidades para o assassinato, a existência de uma galinha preta, que ao fim vai sobreviver à explosão de gás provocada para o crime. O fato transformou-se num detalhe dos mais discutidos e teve que ser explicado pelo próprio diretor. 

‘‘A galinha, na verdade, não tem nenhuma importância real. André inclui a galinha no plano apenas para que todos, inclusive imprensa e polícia, fiquem se perguntando para que serve a galinha, distraindo a atenção sobre o crime. Na cena final, no Corcovado, Cardoso lê a notícia sobre a morte de Antunes e comenta que ‘eles falam mais da galinha que do morto.’ A idéia de André era exatamente essa. A inclusão da galinha é também uma crítica à mania que a imprensa tem de supervalorizar matérias com bicho (nos anos 80, era quase uma regra o Jornal Nacional terminar com matérias assim). No filme há uma matéria assim na tevê — a mãe de André assiste a um jornal com uma reportagem sobre um leão marinho’’, diz Jorge Furtado. (Correio Brasiliense, 29/06/2003 – Caderno C)

Em se tratando de imprensa, isto não é novidade nenhuma. O livro Os elementos do Jornalismo, o que os jornalistas devem saber e o público exigir, apresenta um relato interessante de Cassandra Tate, na Columbia University Journalism Review, a revista de jornalismo da mais significativa escola dos EUA. Ela conta que, em 1913, Joseph Pulittzer, proprietário do New Yorque Herald resolveu criar o Bureau de precisão e Equidade, que visava dar mais credibilidade ao seu jornal. O primeiro ombudsman, observou que em todas as matérias envolvendo acidentes marítimos havia um gatinho que era salvo do naufrágio. Para surpresa dele, ao consultar os repórteres, recebeu o seguinte relato:

”Num desses navios acidentados havia um gato e a tripulação fez de tudo para salvá-lo e conseguiu. Eu converti o bichano num personagem da minha matéria, enquanto os outros repórteres nem perceberam o animal e depois levaram a maior bronca por terem sido furados pelo World. Quando aconteceu outro desastre no mar, não havia gato algum à bortdo, mas a turma não queria levar outro furo e inventou o bicho. Fiz minha matéria e não coloquei nenhum gato, e depois foi minha vez de ouvir desaforos da chefia por ter sido furado. Agora, quando acontece um desastre marítimo, todos nós colocamos um gatinho na matéria” (Kovach, Bil e Rosenstiel, Tom, 64, 2003)

 A mágica dos detalhes acabou por seduzir o jornalismo de visão pragmática que redundou na valorização de detalhes e dados como formato de informação, em detrimento da busca do sentido ou da angulação dada a um fato. A incerteza dos propósitos remete o jornalismo à falácia da notícia. Os dados por si só não se constituem em argumentos no jornalismo interpretado. O argumento é a idéia que se coloca a partir do fato, com argumentos constituídos por dados numéricos, enunciações ou observação do repórter.  

Mais do que um exercício de genialidade o jornalismo é o equacionamento entre o realismo e a realidade, fazer jornal, no entanto, implica na conjugação das heurísticas sociais. O fato ou o tema, como texto para a notícia ou pré-texto para a reportagem deve ser observado na amplitude de suas dimensões para que o repórter ter elementos completos para defender seu ponto de vista, a partir da realidade não ficcional. Mais do que relatar o fato o repórter conta uma história e busca no leitor a complementação do fato. A matéria jornalística é uma leitura reflexa da realidade a denominar a própria realidade. Ou seja: o jornalista recolhe o fato da sociedade e o transforma no devir social. Descreve a sociedade e esta, ao mirar-se no material jornalístico forma o conceito daquilo que é.

Observar o fato na sua amplitude é levar em consideração todos os elementos conjunturais que circundam o fato e são insistentemente imútáveis: as heurísticas sociais. Elas nos dão padrões comportamentais ou ambientais. São filtros que comandam os procedimentos jornalísticos de apuração e transmissão de informação

A heurística da notícia nos remete à tradicional fórmula quem, o que, quando, onde, como e porquê?

O fato é o que. Geralmente fruto de um conflito que anuncia uma mudança de status quo.  É a notícia. A “novidade” a partir da qual estabelecemos o gancho de abordagem ou o estabelecimento da idéia, no caso de um trabalho mais apurado que é a reportagem.

que acontece num onde que é a definição da paisagem, do ambiente, em todas as suas dimensões:

  • aridez ou exuberância do espaço,
  • arquitetura urbana ou característica campestre,
  • elementos deslocados do seu ecosistema.

O que  também acontece num  quando. Relação cronológica que deve ser observada em toda a sua dimensão e em todos os seus sentidos. Isto quer dizer que devemos atribuir importância às relações de tempo:

  • passado/presente/futuro,
  • estações do ano,
  • eras, meses, dias da semana,
  • horários (manhã-tarde/noite-madrugada).

Geralmente o que envolve personagens que é o quem. Individualmente devem ser vistos como pessoas em relação de:

  • gênero (masculino/feminino/etc),
  • número (1,2,3... grupos,  populações, etnias) e
  • grau (hierarquias, classes relações de proximidade e de conflito).
  • Parentesco (pais, irmãos, descendência, estado civil)
  • Idade (criança, jovem, velho)

O que também implica no como. Envolve a praxeologia que vai corresponder ao nível de atuação dos personagens (a metodologia e seus paradigmas, hábitos, tradição, costumes, protocolos)  e estão em planos que revelam  a tradição, os costumes, a cultura e podem estar em estágios do desenvolvimento humano:

  • primário É o folclore, a arte popular, técnicas rudimentares (envolve o primitivo, o popular, o empírico, o não qualificado, que geralmente têm garantido o estabelecimento de resultados por ser consagrado pelo uso).
  • secundário É a prática desenvolvimentista, a arte de vanguarda (envolve a aplicação de tecnologia, metodologia apurada e preocupação como estabelecimento de resultados devido às incertezas geradas pela não consagração pelo uso).

O que também tem seu porquê. Aqui entram em cena uma série de elementos destinados a promover a hierarquização de motivações.  Podem ser entendidos como:

  • a crença que o envolve, determinada pelo grau de conhecimento num determinado segmento. A filosofia, ideologia, teorias, metas,
  • o valor que implica na importância, benefício e utilidade que o envolve.
    1. Podem ser de cunho moral, determinados pelos junções institucionais do ser;
    2. material, determinado pelas relações do ter;
    3. conjuntural, quando representam apenas situações momentâneas e de pouco envolvimento, determinado pelas questões do estar
  • as sanções que representam manifestações de premiação ou de punições. São instâncias de modelação no contexto social. Visam além de estabelecer relações de mérito/demérito encorajar ou reprimir comportamentos ou desempenhos pré-determinados. São instrumentos de contenções e motivações nem sempre aplicados como na Justiça. Geralmente sem o estabelecimento de um código implícito.

Devemos levar em consideração também que cada um destes itens acima podem combinar-se mudando a configuração do conjunto de idéias. Aquilo que estabelecemos para o que, também é válido para o quem, quando, o como, o onde, o porquê, o que vai possibilitar infinitas configurações.

Além destes itens,  chamados de elementos operacionais pela Teoria da Organização Humana,de Rubbo-Müller, ainda vamos encontrar na mesma teoria, outros quatroze pontos que determinam um quadro heurístico. Cada um dos operacionais, interagem com cada ponto (chamados de sistemas específicos por Rubbo-Müller). Assim, no mínimo, para um levantamento de dados que contemple a apuração de uma matéria jornalística também devemos observar:

1) As pessoas tem família. Elas estão envolvidas com processos da geração humana que determinam suas origens. Quem são os pais, avós... quais os ascendentes/descendentes ilustres, etc.

2) As pessoas vivem em estado de saúde. Em que grau? Já teve alguma doença séria? Quais são as variáveis que determinam seu estado de higidez?

3) As pessoas se mantém. De que forma: de que se alimentam. Há conceitos diferenciados? Fazem suas compras em supermercados? Cultivam hortas, pequenos animais, grandes animais?

4) As pessoas estão envolvidas com o associativismo. Pertencem a algum clube, sindicato. Amizades com quem?

5) As pessoas promovem ações de lazer. O que fazem nas horas de folga? O que representa o prazer para elas?

6) As pessoas se comunicam. De que forma se comunicam no espaço, rodovias... ferrovias, condução própria... bicicleta...watsap?

7) As pessoas desenvolvem cultura. Em que grau há esse desenvolvimento. Há estudos específicos e oficiais como a escola formal? Existem alguma relação informal como o auto-didatismo. Tudo que envolve técnica e ciência entra aqui?

8) As pessoas tem patrimônio. O que têm? Como têm? O que pensam a respeito do ter?

9) As pessoas estão envolvidas com algum tipo de produção. Pode ser comercial, industrial, de serviços, artística/cultural. Pertencem a alguma banda de música? A uma corrente literária? Artes plásticas, literatura?

10) As pessoas tem religiosidade. De que forma esta religiosidade se manifesta dentro do cardápio de opções que existe na sociedade. Como é a relação mística delas. Em que consiste?

11) As pessoas desenvolvem mecanismos de segurança. Quais são estes. O que pensam a respeito deles? De que forma as pessoas se sentem seguras?

12) As pessoas estão envolvidas com aspectos que determinam a administração de suas vidas e uma permanente negociação, a partir de seus interesses. De que forma elas trabalham com as diferenças? Que tipo de negociação fazem?

13) As pessoas estão envolvidas com um arcabouço jurídico. Que normas regem suas vidas? Estão de acordo com as normas legais? Há ilegalidades?

14) Finalmente,  as pessoas  se posicionam na sociedade a partir de um grau de mérito e respeito pelos resultados alcançados. No que elas têm mérito e importância.